Tudo o que o Enfermeiro precisa saber sobre Febre Amarela

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A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, hemorrágica, febril e não contagiosa causada por arbovírus do gênero Flavivirus (família Flaviviridae) e transmitida por vetores. O mosquito Haemagogus é o principal transmissor no ciclo silvestre, o qual pode picar seres humanos que adentram nessas áreas. No ciclo urbano, a transmissão aos seres humanos acontece por meio do mosquito contaminado Aedes aegypti.

O primeiro surto brasileiro documentado ocorreu na Grande Recife e interior em 1685 e um ano depois em Salvador. Em 1849, aconteceu a primeira grande epidemia no Rio de Janeiro, e outras grandes epidemias ocorreram no final do século XIX e início do século XX. A primeira vacina foi desenvolvida na França em 1928 e introduzida no Brasil, seu atual maior produtor, em 1940.

A África concentra em torno de 90% dos casos, com a estimativa de 200 mil casos por ano no mundo. No Brasil, entre dezembro de 2016 e 12 de abril de 2017, foram notificados ao Ministério da Saúde 2.422 casos suspeitos, sendo que 671 casos estão em investigação, 623 confirmados e 1.128 foram descartados (Figura 1).

Figura 1. Distribuição dos casos de febre amarela notificados à SVS/MS até 12/04/2017. Fonte: http://www.spsp.org.br/2017/04/17/nota-tecnica-atualizacoes-sobre-febre-amarela/

Mecanismo de Transmissão

É transmitido ao homem pela picada do mosquito fêmea infectada e costuma ocorrer durante o dia e o período de incubação nos seres humanos varia de três a seis dias, mas pode chegar a dez dias. Após a transmissão, o vírus se replica nas células e se espalha dos canais linfáticos aos linfonodos e assim infectando o corpo através da corrente sanguínea.
O ciclo de transmissão pode ser silvestre ou urbano (Figura 2).

Figura 2. Ciclo urbano e ciclo silvestre. Fonte: http://www.blog.saude.gov.br/index.php/perguntas-e-respostas/52216-faqms-perguntas-e-respostas-sobre-a-febre-amarela

O homem torna-se fonte de infecção para o mosquito Aedes aegypti, visto que é o hospedeiro (homem-mosquito-homem) (Figura 3).

Figura 3. Mosquito Aedes aegypti. Fonte: http://jornal.puc-campinas.edu.br/aedes-aegypti-dengue-e-zika-virus/

O vetor silvestre é Haemagogus. O mosquito adquire o vírus ao picar macacos infectados e o transmite a humanos que adentram a mata, no qual o homem é considerado um hospedeiro acidental na febre amarela silvestre (Figura 4).

Figura 4. Mosquito Haemagogus. Fonte: http://hnncbiol.blogspot.com.br/2008/01/fiebre-amarilla.html

Sinais e Sintomas em geral:

  • Febre
  • Dor de cabeça
  • Calafrios
  • Dor muscular
  • Náusea
  • Vômito
  • Icterícia (peles e olhos amarelos)
  • Astenia (diminuição da força física)
  • Congestão conjuntival
  • Hemorragias

Casos Suspeitos:

Pessoa com quadro febril agudo (até 7 dias) + alguns dos sinais ou sintomas mencionados e não vacinados.

Fases da doença:

  • Fase de Infecção: febre, cefaleia, dor muscular, náuseas, vômitos, astenia e congestão conjuntiva, em alguns casos aparecem o chamado sinal de Faget (bradicardia juntamente com a febre alta), esse período dura em torno de dois a três dias e no geral o paciente se recupera sem sequelas;
  • Fase de Remissão: os sintomas na maioria das vezes regridem com a queda da temperatura e assim havendo sensação de melhora, mas costuma durar pouco tempo entre um e dois dias;
  • Fase tóxica: retorno da febre, icterícia, cefaleia e mialgia acentuadas, epistaxe, dor epigástrica, hematêmese, sangramentos em locais de punção venosa, podendo chegar à insuficiência hepato-renal com evolução para coma e morte.

Grupos de risco:

Todas as pessoas que vivem, circulam ou se aproximem de áreas florestais e que não estejam vacinadas, estão expostas ao mosquito (infectado).

Avaliação:

  • Aferição da pressão arterial
  • Frequência cardíaca
  • Frequência respiratória
  • Temperatura
  • Hidratação: turgor e elasticidade, diminuição do volume da urina e ressecamento de mucosas
  • Presença de icterícia
  • Nível de consciência
  • Sinais de sangramento.

Exames laboratoriais:

Hemograma, plaquetas, fatores de coagulação, sumário de urina e verificação das funções hepática (dosagem das aminotransferases, bilirrubina e gama GT) e renal (dosagem de uréia e creatinina, e monitoramento do balanço hídrico).

Tratamento:

Segundo a OMS não existe tratamento específico para a febre amarela, pois não há medicamentos específicos contra o vírus. São tratados os sintomas e é indicado o não uso de anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico (AAS).

Prevenção:

  • Vacinação
  • Não permitir o acúmulo de água
  • Uso de inseticidas para combater as formas adultas do mosquito.

Sobre a vacina:

A vacina tem como objetivo proteger a pessoa, formando anticorpos protetores e estabelecendo barreiras para propagação do vírus. A (OMS) recomenda que a população em área de risco seja vacinada em pelo menos 90%.

A vacina é composta de vírus vivos atenuados, derivada da cepa 17D, cultivado em ovos embrionados. Contém: sacarose, glutamato, sorbitol, gelatina bovina, eritromicina e canamicina.

Existem duas fórmulas no Brasil, uma nas unidades de saúde pública (cepa 17DD, produzida em Bio-Manguinhos, Fundação Osvaldo Cruz, RJ) e a outra em clínicas privadas (cepa 17D204, produzida pelo laboratório Sanofi-Pasteur), cada dose da vacina corresponde a 0,5 mL e administração é subcutânea.

O Ministério da Saúde recomenda que a vacina seja ministrada em dose única para adultos e crianças e a idade mínima é de 9 meses de idade (Figura 5).

Figura 5. Orientação para vacinação. Fonte: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao

Contraindicação da vacina:

A vacina é contraindicada para algumas pessoas, pois existem riscos de reações:

  • Gestantes
  • Lactantes
  • Pessoas com mais de 60 anos (somente após avaliação médica)
  • Pessoas alérgicas a ovos e gelatina
  • Bebês com menos de 6 meses de idade
  • Pessoas portadoras de imunodeficiência congênita ou adquirida, neoplasia maligna
  • Portadores do vírus HIV com alteração imunológica
  • Pacientes em terapêutica imunodepressora: quimioterapia, radioterapia, corticoide em doses elevadas (equivalente a prednisona na dose de 2mg/kg/dia ou mais para crianças, ou 20 mg/dia ou mais, para adultos, por mais de duas semanas).

Situações em que a vacina deve ser adiada:

  • Considerar até três meses após o tratamento com imunodepressores ou com corticoides em dose elevada
  • Vigência de doenças febris graves, principalmente para que seus sinais e sintomas não sejam atribuídos ou mesmo confundidos com os possíveis eventos da vacina.

Enfermagem:

A enfermagem participa em todas as etapas do tratamento por meio:

  • Avaliação do paciente, exame físico, monitoramento dos sinais vitais (Coleta de dados ou Histórico de Enfermagem)
  • Coleta de material para exames laboratoriais
  • Orientação individual sobre a doença (forma de transmissão, tratamento, prevenção);
  • Acompanhamento no hospital, orientando a equipe para os cuidados com o paciente, examinando o paciente e orientando a família
  • UBS e comunidade – Promoção e prevenção em saúde

 

REFERÊNCIAS

BENCHIMOL, Jaime Larry. História da febre amarela no Brasil. Hist. cienc. saude-Manguinhos, vol. 1, n. 1, Rio de Janeiro, Jul./Out. 1994. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59701994000100010>
CAVALCANTE, Karina Ribeiro Leite Jardim; TAUIL, Pedro Luiz. Características epidemiológicas da febre amarela no Brasil, 2000-2012. Epidemiol. Serv. Saúde, vol. 25, n. 1, Brasília, Jan./Mar. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222016000100011>
FREITAS, André Ricardo Ribas. Situação epidemiológica da Febre Amarela 12/abr/2017. Disponível em: <http://www.saude.campinas.sp.gov.br/doencas/febre_amarela/2017/Febre_amarela_Manejo_Clinico_e_Imunizacao_12042017.pdf>
Guia de Vigilância de Epizootias em Primatas não Humanos e Entomologia Aplicada à Vigilância da Febre Amarela Ministério da Saúde - 2a edição atualizada. Ministério da Saúde 2017. Disponível em <http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/marco/24/Guia_Epizootias_Febre_Amarela_2a_ed_atualizada_2017.pdf>
Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos - Febre amarela: sintomas, transmissão e prevenção. Bio-Manguinhos/Fiocruz 2014. Disponível em: <https://www.bio.fiocruz.br/index.php/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao>
Nota Técnica: Atualização das Condutas em Febre Amarela – Sociedade de Pediatria de São Paulo. Disponível em: < http://www.spsp.org.br/2017/04/17/nota-tecnica-atualizacoes-sobre-febre-amarela/>
PIVETTA, Marcos. A ameaça da febre amarela. Pesquisa FAPESP, vol. 253, Mar. 2017. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2017/03/060-063_Febre-amarela_253.pdf>
SAAD, Leila Del Castillo; BARATA, Rita Barradas. Surtos de febre amarela no estado de São Paulo, 2000-2010. Epidemiol. Serv. Saúde, vol. 25, n. 3, Brasília, Jul./Set. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222016000300531>
VASCONCELOS, Pedro Fernando da Costa. Febre amarela. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, vol. 36, pg. 275-293, Mar./Abr. 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsbmt/v36n2/a12v36n2>

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