Posicionamento cirúrgico: o papel do enfermeiro na segurança do paciente

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O enfermeiro é o responsável pelo planejamento e implementação de intervenções de enfermagem que previnam as complicações decorrentes do procedimento anestésico-cirúrgico, prestando assistência ao paciente juntamente com a equipe multiprofissional. O enfermeiro identifica alterações anatômicas e fisiológicas do paciente associadas ao tipo de anestesia, tempo cirúrgico e procedimento a que será submetido, para que não apresente complicações no pós-operatório (LOPES & GALVÃO, 2010). Ressalta-se que os pacientes passam um longo tempo sobre a mesa cirúrgica, submetidos aos efeitos de anestésicos e relaxantes musculares, que trazem ao paciente uma condição de fragilidade e dependência física. Desta forma, ainda existe a necessidade de mantê-lo em variadas posições que atendam as exigências da técnica operatória, para que se obtenha sucesso no procedimento anestésico-cirúrgico (GRIGOLETO, et. al. 2011; LOPES & GALVÃO, 2010; MATOS; PICOLLI, 2004).

O posicionamento cirúrgico do paciente é um ato que exige competência, devendo ser preciso e julgado como fator preponderante na realização segura do procedimento cirúrgico, considerando ser um fator chave para a promoção do bem-estar e segurança, prevenindo os eventos adversos. Cabe ao enfermeiro planejar os cuidados que melhor atendam o paciente e saber reconhecer os fatores de risco relacionados ao posicionamento cirúrgico, para que se possam adotar medidas eficazes que contribuam na recuperação (GRIGOLETO et. al., 2011; BENTLIN, et. al. 2012; BARBOSA, et. al. 2011).

As condições preexistentes devem ser consideradas ao planejar a assistência de enfermagem ao paciente cirúrgico. Todos os fatores de risco devem ser identificados na avaliação pré-operatória e documentados, contribuindo para o plano de cuidados (LOPES; GALVÃO, 2010).

Os pacientes cirúrgicos são os primeiros candidatos a desenvolverem lesões de pele no intraoperatório, devido à diminuição de fluxo sanguíneo capilar, por tempo prolongado de imobilidade e pressão. Uma das complicações mais comuns é o desenvolvimento de lesão por pressão (LPP). Existem diversos fatores de risco relacionados à etiopatogenia da LPP que se desenvolvem durante os procedimentos cirúrgicos e podem ser agrupados em fatores intrínsecos e extrínsecos.

Entre os intrínsecos, destacam-se: idade (pessoas muito jovens e idosos podem ter a pele mais sensível), peso corporal (o sobrepeso e o baixo peso podem potencializar o surgimento de lesões), estado nutricional (desnutrição, desidratação), doenças crônicas (diabetes mellitus, vasculopatias, neuropatias, hipertensão e anemia). Entre os extrínsecos: tipo e tempo de cirurgia (procedimentos maiores que duas horas podem comprometer a oxigenação dos tecidos comprimidos), anestesia (perda da proteção fisiológica compensatória), problemas no controle da temperatura corporal (hipotermia faz com que estruturas do corpo dependam de mais oxigênio e, sem o aporte necessário, pode favorecer o aparecimento de lesões), posições cirúrgicas e a imobilização devido ao posicionamento (CARNEIRO; LEITE, 2011).

Algumas posições associadas a particularidades do paciente podem aumentar o risco de complicações, como a posição de litotomia em um paciente obeso, poderá comprometer sua função respiratória, podendo causar até síndrome compartimental. Sendo assim, todos os pacientes cirúrgicos devem ser considerados como de alto risco para o desenvolvimento de LPP (LOPES; GALVÃO, 2010; SERGIO et al., 2012; SCARLATTI et al., 2011).

Sem dúvida, a pele enquanto barreira natural é o órgão que está mais sujeito aos agravos decorrentes do posicionamento cirúrgico, apresentando eritemas, equimoses, risco para LPP, queimaduras elétricas, lesões por substâncias químicas e alopecia focal. A pressão externa de 32 mmHg é considerada o limiar, além desta, os pequenos vasos entram em colapso, causando trombose, o que resulta em oclusão do fluxo sanguíneo tecidual e privação da quantidade necessária de oxigênio e nutrientes. Ocorre, então, a produção de metabólitos tóxicos em nível celular, levando à acidose tecidual, aumento da permeabilidade capilar, edema, morte celular e formação de lesão por pressão. A pressão se não aliviada resulta em danos aos tecidos (LOPES; GALVÃO, 2010; BARBOSA et al., 2011; URSI; GALVÃO, 2006).

O posicionamento cirúrgico do paciente pode causar algum impacto negativo nos sistemas do corpo, ocasionando várias complicações como: dor musculoesquelética, deslocamento de articulações, danos em nervos periféricos, lesões de pele, comprometimento cardiovascular e pulmonar (LOPES; GALVÃO, 2010).

Lembrando que o volume do fluxo de sangue capilar pulmonar diminui com a imobilidade prolongada. A expansão pulmonar é limitada pela pressão da posição sobre as costelas ou pela capacidade do diafragma de forçar o conteúdo abdominal para baixo. A anestesia provoca vasodilatação periférica, resultando em hipotensão, e diminuindo o retorno venoso. Faz ainda com que as defesas normais diminuam a capacidade de proteção contra a manipulação excessiva (CARNEIRO; LEITE, 2011).

Compete ao enfermeiro, juntamente com os demais membros da equipe, a responsabilidade em avaliar previamente o paciente de maneira abrangente, observar as condições dos suportes de apoio e qualquer situação que possa comprometer o posicionamento do paciente na mesa de operações e acarretar sérias complicações (GRIGOLETO et al., 2011; SÉRGIO et al., 2012).

As intervenções eficazes na prevenção de lesões de pele estão relacionadas ao alívio de pressões durante e imediatamente após a permanência do paciente na mesa cirúrgica, sobre o colchão padrão. Os dispositivos mais eficazes na prevenção de lesões de pele, em ordem decrescente são: o colchão de ar micro pulsante, cobertura de colchão de polímero de visco elástico seco e almofadas de gel (GRIGOLETO et al., 2011; URSI; GALVÃO, 2006).

Conclui-se que são de vital importância os cuidados de enfermagem no posicionamento do paciente para a cirurgia, tendo visto que, a avaliação é realizada considerando os fatores de risco para o desenvolvimento de complicações que possam comprometer a integridade física do mesmo. O enfermeiro, como profissional responsável pelo paciente no centro cirúrgico, deve garantir a sua proteção e segurança, valendo-se da SAEP (Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória), ferramenta disponível, indispensável e de alta importância, que permite uma melhor avaliação, bem como uma assistência holística.


 

REFERÊNCIAS

BARBOSA, M.H; OLIVA, A.M.B; NETO, A.L.S. Ocorrência de lesões perioperatórias por posicionamento cirúrgico. Revista Cubana de Enfermería. v. 27, n. 1, p. 31-41, 2011.

BENTLIN, A.C; GRIGOLETO, A.R.L; AVELAR, M.C.Q. Lesões de pele decorrente do posicionamento cirúrgico no cliente idoso. Rev. SOBECC. v. 17, n. 2, p. 56-63, 2012.

CARNEIRO, G.A, LEITE, R.C.B.O. Lesões de pele no intra-operatório de cirurgia cardíaca: incidência e caracterização. Rev Esc Enferm USP. v. 45, n. 3, p. 611, 2011.

GRIGOLETO, A.R.L, AVELAR, M.C.Q; LACERDA, R.A; MENDONÇA, S.H.F. Complicações decorrentes do posicionamento cirúrgico de clientes idosos submetidos à cirurgia de quadril. Rev. Esc Anna Nery. v. 15, n. 3, p. 531-535, 2011.

LOPES, C.M.M; GALVÃO, C.M. Posicionamento cirúrgico: evidências para o cuidado de enfermagem. Rev. Latino-Am. Enfermagem. v. 18, n. 2, [08 telas], 2010.

MATOS, F.G.O; PICCOLI, M. Diagnóstico de Enfermagem Risco para Lesão Perioperatória por posicionamento identificado no período transoperatório. Rev. Ciência, Cuidado e Saúde, v. 3, n. 2, p. 195-201, 2004.

POLIT, D.F; BECK, C.T; HUNGLER, B.P. Fundamentos da pesquisa em Enfermagem: métodos, avaliação e utilização. 5. ed. Porto Alegre (RS), 2004.

RODRIGUES, R.T.F; LACERDA, R.A, LEITE, R.B; GRAZIANO, K.U; PADILHA, K.G. Enfermagem transoperatória nas cirurgias de redução de peso: revisão integrativa da literatura. Rev Esc Enferm USP, v. 46 (Esp), p. 138-47, 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v46nspe/20.pdf.

SCARLATTI, K.C; MICHEL, L.M; GAMBAS, M.A; GUTIERREZ, M.G.R. Úlcera por pressão em pacientes submetidos à cirurgia: incidência e fatores associados. Rev Esc Enferm USP, v. 45, n. 6, pág. 1372-9, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v45n6/v45n6a14.pdf.

SÉRGIO, F.R; CAMERON, L.E; VITAL, I.C.O. Síndrome Compartimental relacionada ao posicionamento cirúrgico: um inimigo silencioso. Rev. SOBECC. v. 17, n. 3, pág. 71-80, 2012.

URSI, E.S; GALVÃO, C.M. Prevenção de lesões de pele no perioperatório: Revisão integrativa da literatura. Rev Latino-Am Enfermagem. v. 14, n. 1, p. 124-31, 2006.

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