Parto Normal, Cesariana ou Parto Humanizado?

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É interessante como em meio as conversas percebemos que algumas questões ainda são mal resolvidas e muitas dúvidas ainda prevalecem a respeito da escolha mais apropriada para um momento tão importante na vida de uma mulher e de sua família.

Parto normal, cesariana ou parto humanizado? Como assim? São perguntas que de imediato percebemos que há falta de conhecimento nas entrelinhas. Observe! Sabemos que o parto normal é o mesmo que parto fisiológico, parto vaginal ou parto espontâneo. Já a cesariana é nada mais nada menos que a extração do feto, exteriorização do conteúdo fetal, do bebê do útero materno por meios cirúrgicos.

E o que é o parto humanizado? Ouvimos diversas respostas como: “ah, parto humanizado é aquele bem lindo que acontece em casa, que a mulher espera o tempo que a criança quer vir ao mundo”. Ou: “parto humanizado é aquele em que a mulher pode escolher quem vai ficar ao seu lado”. Ou ainda: “é aquele em que ela pode ficar na banheira para diminuir suas dores e que depois ainda pode ficar caminhando”. E por aí vai!

Como assim? O que realmente é um parto humanizado? Não são poucas as vezes que presenciamos respostas como estas. Elas são recorrentes mesmo. Vamos aqui, pensar na melhor resposta, certo?

Por que não começar com o tão falado parto normal? Ah, este é, por sua vez, aquele que provoca arrepios nos que veem a parturiente entre gemidos e, logo mais, com sorrisos quando a mesma vê o seu esperado filho em seus braços, não é verdade? Com o nascimento de seu filho (que é o que chamamos de expulsão do feto), todas as dores são cessadas, as lágrimas agora são sinônimos de felicidade, de nova vida, de esperança.

Mas será que este foi um parto normal ou humanizado? Vamos deixar nossas respostas em off e continuar agora com a cesariana, tudo bem?

A cesariana é uma cirurgia realizada pelo médico obstetra, por meio de uma incisão no abdome e no útero para a retirada do bebê. A mulher é submetida a uma anestesia (raquidiana) e propensa aos mesmos riscos cirúrgicos de outras cirurgias, mudando apenas a gravidade de cada caso. Os cuidados pré, trans e pós cirúrgicos também devem ser respeitados conforme os demais procedimentos cirúrgicos. Dito isto, a cesariana pode ser considerada como sendo um parto humanizado?

A cesárea é uma intervenção cirúrgica originalmente concebida para reduzir o risco de complicações maternas e/ou fetais durante a gravidez e o trabalho de parto. A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que o total de partos cirúrgicos em relação ao número total de partos realizados em um serviço de saúde seja de 15%, os quais devem ter indicação precisa. O Brasil apresenta uma das taxas de cesárea mais elevadas do mundo e tem sido citado como exemplo claro do abuso desse procedimento. A cirurgia cesariana traz benefícios a gestantes e recém-nascidos quando sua indicação é bem determinada. Todavia, há a necessidade de evitar-se a cesariana desnecessária.

A seguir temos uma definição resumida do que é um parto normal e de uma cesariana.

Qual tipo de parto escolher?

Na maioria dos casos, a gestante tem o privilégio de escolher desde o pré-natal, a melhor forma de parto que a mesma acha ser capaz de enfrentar. Nesta escolha, permeia a humanização presente nas ações de saúde realizadas por nós, profissionais da saúde, desde o planejamento familiar ao pré-natal. É principalmente no pré-natal que disponibilizamos à gestante um melhor entendimento a respeito das vias de parto, quais as vantagens e desvantagens, a forma de recuperação e os riscos de ambos.

No entanto, infelizmente, para algumas gestantes esse privilégio não é observado pelo nível de saúde que as mesmas apresentam. Algumas vezes, o parto deve ser antecipado ou uma cesariana deve ser feita para diminuir os riscos para a mãe e seu bebê ou, ainda mais drástico, uma escolha deve ser feita entre a vida da mãe e a da criança. Momento de conflito e desgaste emocional por parte dos profissionais e familiares como um todo.

Vale salientar aqui que as escolhas que a mulher faz devem por nós serem ouvidas, no intuito de manter a humanização em nossa assistência. Como contraponto ainda vemos alguns privilégios oferecidos para uma parcela da população. Um exemplo disso, vemos que no serviço privado a mulher recebe o direito de optar por uma cesariana. Sendo fortemente influenciada por esse tipo de parto, deixando-a sem escolhas para dar seguimento a sua escolha para um parto normal. Enquanto isso, no serviço público, estudos têm demonstrado que as mulheres não têm o direito de escolha para a cesariana.

Cesariana

As indicações de cesariana são divididas em absolutas e re­lativas. Ressalta-se que, atualmente, a maioria das indicações é relativa. As principais indicações de cesariana com as atuais recomendações e os seus respectivos graus de recomendação são apresentados no Quadro 1.

Parto não se faz, se vive. Em momento algum os profissionais realizam partos! Nesse momento, a própria fisiologia dita as regras. É ela quem nos mostra seus sinais de alerta, a posição que a criança quer vir ao mundo, a melhor posição que a mulher se adapta. Nós apenas dançamos conforme sua música, proporcionando o melhor conforto para todos os envolvidos: mulher, recém-nascido e familiares. É no partejar que a enfermeira obstetra mostra a diferença. Para o profissional, vale ressaltar que a experiência da mulher deve ser considerada para seu benefício. O saber popular deve ser respeitado para juntos optarem na melhor escolha de parto. Isso sim, considera-se um parto humanizado.

A Gestante pode ser influenciada antes do parto?

Claro que sim! A maioria das gestantes são influenciadas por suas mães, pela mídia. Qual o parto que está em alta? São influenciadas pelas amigas e por experiências anteriores. Tudo que está à sua volta pode ser considerado por ela, principalmente quando lembramos que ela está ainda mais sensível e apreensiva consigo e seu bebê. Lembra que há muita oscilação de hormônios, os quais induzem a mudanças de humor? Pois bem, por isso a importância de informá-la já no início de seu pré-natal.

Profissional que assiste ao parto

A assistência ao parto e nascimento de baixo risco, que se mantenha dentro dos limites da normalidade, pode ser realizada tanto por médico obstetra quanto por enfermeira obstétrica e obstetriz. É recomendado que os gestores de saúde proporcionem condições para a implementação do modelo de assistência que inclua a enfermeira obstétrica e obstetriz na assistência ao parto de baixo risco, por apresentar vantagens em relação à redução de intervenções e maior satisfação das mulheres.

Mulheres em trabalho de parto devem ser tratadas com respeito, ter acesso às informações baseadas em evidências e serem incluídas na tomada de decisões. Para isso, os profissionais que as atendam deverão estabelecer uma relação empática, perguntando-lhes sobre seus desejos e expectativas. Os profissionais devem estar conscientes da importância de sua atitude, do tom de voz e das próprias palavras usadas, bem como a forma como os cuidados são prestados.

Para estabelecer comunicação com a mulher os profissionais devem:

  • Cumprimentar a mulher com um sorriso e uma boa acolhida, apresentar-se e explicar qual o seu papel nos cuidados e indagar sobre as suas necessidades, incluindo como gostaria de ser chamada.
  • Manter uma abordagem calma e confiante, demonstrando a ela que tudo está indo bem.
  • Bater à porta do quarto ou enfermaria e esperar antes de entrar, respeitando aquele local como espaço pessoal da mulher e orientar outras pessoas a fazerem o mesmo.
  • Perguntar à mulher como ela está se sentindo e se alguma coisa em particular a preocupa.
  • Se a mulher tem um plano de parto escrito, ler e discutir com ela.
  • Verificar se a mulher tem dificuldades para se comunicar da forma proposta, se possui deficiência auditiva, visual ou intelectual; perguntar qual língua brasileira (português ou libras) prefere utilizar ou, ainda, para o caso de mulheres estrangeiras ou indígenas verificar se compreendem português.
  • Avaliar o que a mulher sabe sobre estratégias de alívio da dor e oferecer informações para encontrar quais abordagens são mais aceitáveis para ela.
  • Encorajar a mulher a adaptar o ambiente às suas necessidades.
  • Solicitar permissão à mulher antes de qualquer procedimento e observações, focando nela e não na tecnologia ou na documentação.
  • Mostrar à mulher e aos seus acompanhantes como ajudar e assegurar-lhe que ela o pode fazer em qualquer momento e quantas vezes quiser. Quando sair do quarto, avisar quando vai retornar.
  • Envolver a mulher na transferência de cuidados para outro profissional, tanto quando solicitar opinião adicional ou no final de um plantão.

O que realmente é um parto humanizado?

A humanização do parto é o respeito à mulher como pessoa única, em um momento da sua vida em que necessita de atenção e cuidado. É o respeito, também, à família em formação e ao bebê, que tem direito a um nascimento sadio e harmonioso. Humanizar é:

  • Acreditar que o parto normal é fisiológico e que na maioria das vezes não precisa de qualquer intervenção;
  • Saber que a mulher é capaz de conduzir o processo e que ela é a protagonista desse evento;
  • Conversar, informar a mulher sobre os procedimentos e pedir sua autorização para realizá-los;
  • Garantir e incentivar a presença a todo o momento de um acompanhante escolhido pela mulher, para lhe passar segurança e tranquilidade;
  • Promover um ambiente acolhedor;
  • Respeitar cada mulher na sua individualidade, levando em consideração seus medos e suas necessidades;
  • Oferecer à mulher as melhores condições e recursos disponíveis, para que se sinta acolhida e segura nesse momento tão especial;
  • Prestar assistência ao parto e nascimento seguindo as evidências científicas e os mais altos padrões de qualidade, de acordo com as Normas Técnicas e recomendações do Ministério da Saúde;
  • Permitir o contato imediato do bebê com a mãe logo ao nascer, e garantir que permaneçam juntos durante todo o período de internação.

A humanização do parto está focada no respeito às escolhas da mulher, no direito a um atendimento digno, respeitoso e sem qualquer tipo de violência. Os conceitos da humanização do parto devem estar presentes em todos os locais de assistência à gestante: em um hospital público, privado, em uma casa de parto e até no domicílio. O que importa é que sejam adotadas práticas que garantam o direito à informação e às escolhas da mulher.

Fica a dica: não importa qual o tipo de parto, TODOS devem ser humanizados.

 

REFERÊNCIAS

Inagaki ADM, da Silva JC, Santos MS. CESÁREA: PREVALÊNCIA, INDICAÇÕES E DESFECHO DO RECÉM-NASCIDO. Rev enferm UFPE on line., Recife, 8(12):4278-84, dez., 2014.
Amorim MMR, Souza ASR, Porto AMF. Indicações de cesariana baseadas em evidências: parte I. FEMINA | Agosto 2010 | vol 38 | nº 8.
Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal - Janeiro/2016.
Humanização do parto. Nasce o respeito. Informações práticas sobre seus direitos. Recife, 2015.

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