Os Cuidados de Enfermagem ao paciente com Doença de Parkinson

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A Doença de Parkinson é uma doença degenerativa, crônica, não transmissível e progressiva do sistema nervoso. Está associada à degeneração dos neurônios responsáveis pela produção da dopamina, neurotransmissor participante de várias funções como cognição, motivação, atenção, movimento voluntário, aprendizagem, humor e memória.

Foi descrita como “paralisia agitante” pela primeira vez em 1817 pelo médico inglês James Parkinson, o qual publicou um estudo chamado “Ensaio da Paralisia de Agitação” (uma descrição de sintomas como lentidão, rigidez e tremor). Em 1875, o neurologista francês, considerado “pai da neurologia”, Jean Martin Charcot, foi quem denominou a doença como Maladie Parkinson (em francês). A denominação correta em português é Doença de Parkinson, mas foi traduzida erroneamente de Maladie Parkinson para Mal de Parkinson, sendo que Maladie significa Doença.

Em 2010, a Associação Parkinson Brasília estimou que 200 mil pessoas tivessem a doença no Brasil e estudos internacionais sugerem que esse número dobrará até 2030.

A etiologia é considerada como espontânea ou desconhecida, pois são decorrentes de vários fatores (genéticos, toxinas ambientais, alteração do envelhecimento e/ou estresse oxidativo).

A fisiopatologia envolve déficits progressivos dos sistemas dopaminérgicos, colinérgicos, serotoninérgicos e noradrenérgicos, ocorrendo a degeneração das células da substância negra responsáveis pela produção de dopamina (Figuras 1 e 2).

Figura 1. Substância negra normal e degeneração neuronal. – Fonte: https://museudinamicointerdisciplinar.wordpress.com/tag/dopamina/

Figura 2. Comparativo de neurônio normal e neurônio com Doença de Parkinson. Fonte: http://www.santaterezatem.com.br/index.php/2015/07/05/pacientes-com-parkinson-podem-melhorar-a-fala/

Na Estratégia Saúde da Família (ESF) cabe aos profissionais da saúde minimizar o impacto da doença por meios de atitudes humanitárias, suporte técnico de reabilitação e auxiliar na manutenção da qualidade de vida.

O dia 11 de abril é considerado o Dia Mundial da Doença de Parkinson, escolhida para homenagear o Dr. James Parkinson (data de seu nascimento) e tem como símbolo principal a tulipa. (Figura 3).

Figura 3. Símbolo que representa o Dia Mundial da Doença de Parkinson. Fonte: http://www.ics.curitiba.org.br/?p=4525

Diagnóstico

O diagnóstico ainda é um desafio, pois é feito por meio do exame físico cuidadoso, visto que não há exames ou testes laboratoriais para auxilio e nem sempre no estágio inicial é possível diagnosticar. Os exames de imagem como tomografia e ressonância magnética podem ser realizados para serem descartadas outras doenças. São considerados quatro sinais mais comuns: rigidez, bradicinesia (lentidão anormal dos movimentos), tremor (em repouso ou em movimento) e diminuição dos reflexos posturais. O diagnóstico é delicado, pois alguns sintomas são semelhantes e atribuídos ao processo do envelhecimento, mas geralmente ocorre a partir dos 40 anos.  Após o diagnóstico, algumas escalas podem ser usadas para avaliação, como:

Escala de Hoehn & Yahr

Trata-se de uma classificação simples que auxilia o médico a determinar o estágio da doença, tendo como princípios básicos os sintomas motores. Essa escala engloba em cinco estágios:

  • Estágio 1 – Unilateral

Fase inicial da doença, apresentando sintomas leves como tremores ou agitação nos membros superiores e inferiores e ocorrem em apenas um dos lados (direito ou esquerdo).

  • Estágio 2 – Bilateral

São sintomas bilaterais (os dois lados do corpo) em ambos os membros, o qual passa a ter dificuldade para caminhar, manter o equilíbrio e executar tarefas físicas normais.

  • Estágio 3 – Instabilidade Postural Moderada

Nesse estágio os sintomas podem ser mais graves como incapacidade de andar em linha reta ou ficar em pé.

  • Estágio 4 - Instabilidade Postural Grave

Manifestam-se os sintomas mais severos como ao andar, muitas vezes com limitações, rigidez e bradicinesia, os quais são frequentemente visíveis. A maioria dos pacientes nesta fase são incapazes de executar tarefas diárias.

  • Estágio 5 – Locomoção Dependente

Geralmente compromete totalmente os movimentos físicos, tornando-se incapaz de cuidar de si mesmo, podendo até não conseguir ficar em pé sozinho.

Escala Unificada de Classificação da Doença de Parkinson – UPDRS

Abrange outros sintomas além dos motores, incluem funcionamento mental, humor e interação social. É uma escala com 42 questões, agrupados em 4 partes, a pontuação varia entre 0 e 199 e considera a atividade do medicamento quando: “on” (sob efeito de levodopa*) e “off” (sem efeito de levodopa*).

*Levodopa – medicamento prescrito para tratamento da Doença de Parkinson.

Questionário da Doença de Parkinson – PDQ -39

Desenvolvido em 1995 pelo Departamento de Saúde Pública da Universidade de Oxford na Inglaterra, é um questionário auto-administrável, o qual aborda aspectos das experiências pessoais do paciente com intuito de avaliar sua qualidade de vida. É composto por 39 questões e distribuídas em 8 categorias e a pontuação varia entre 0 a 100.

Qualidade de Vida na Doença de Parkinson (PDQL)

O objetivo é medir a saúde física e emocional. É um questionário auto-administrável com 37 itens divididos em 4 categorias as quais são: parkinsonianos, sistêmicos, função emocional e social.

Tratamentos:

  • Farmacológico: costuma ser usado para repor a dopamina.
  • Cirúrgico: tratar o tremor, rigidez e bradicinesia. As classes de cirurgia incluem lesões, estimulação profunda do cérebro com eletrodos implantados e transplante neural.
  • Fisioterapêutico: utilizado no processo de reabilitação neurológica, no intuito de impedir ou retardar a perda das habilidades gerais, mantendo o máximo de mobilidade possível e independência do paciente com exercícios motores, marcha, treinamento de atividades do dia-a-dia, relaxamento e exercícios respiratórios.

Diagnóstico de Enfermagem

  • Mobilidade física prejudicada
  • Déficit de autocuidado
  • Constipação intestinal
  • Deglutição Prejudicada
  • Nutrição desequilibrada
  • Comunicação verbal prejudicada
  • Enfrentamento ineficaz

Intervenções de Enfermagem

Melhora da mobilidade:

  • Ajudar o paciente a planejar um programa progressivo de exercícios diários para aumentar a força muscular, melhorar a coordenação e a destreza, reduzir a rigidez muscular e impedir as contraturas.
  • Incentivar exercícios para a mobilidade das articulações – exemplo: caminhada.
  • Instruir a respeito dos exercícios de alongamento e de amplitude de movimentos para aumentar a flexibilidade articular.
  • Incentivar os exercícios posturais para combater a tendência da cabeça e do pescoço a ficar inclinados para frente e para baixo. Ensinar o paciente a andar ereto, a olhar para o horizonte, a realizar marcha com base ampla, balançar os braços enquanto caminha, andar com apoio do calcanhar-dedos dos pés e praticar a marcha ao som de música, incentivar os exercícios respiratórios durante a marcha e frequentes períodos de repouso para evitar fadiga.
  • Orientar o paciente no sentido de que os banhos quentes e as massagens ajudam a relaxar os músculos.

Aumento das atividades de autocuidado:

  • Incentivar, orientar e apoiar o paciente durante as atividades da vida diária.
  • Modificar o ambiente para compensar as incapacidades funcionais.
  • Encaminhar para acompanhamento de um terapeuta ocupacional, quando indicado.

Melhora da eliminação intestinal:

  • Estabelecer uma rotina de evacuação regular.
  • Aumentar o consumo de líquidos, consumir alimentos com conteúdo moderado de fibras.
  • Providenciar um assento de vaso elevado para facilitar o uso do banheiro.

Melhora da deglutição e nutrição:

  • Promover a deglutição e evitar a aspiração, ensinando o paciente a sentar-se em posição ereta durante as refeições.
  • Fornecer uma dieta semissólida com líquidos espessos, que são mais fáceis de deglutir.
  • Orientar o paciente a colocar o alimento sobre a língua, fechar os lábios e os dentes, movimentar a língua para cima e em seguida para trás e deglutir, incentivar a mastigar inicialmente de um lado da boca e, em seguida do outro lado.
  • Lembrar ao paciente para manter a cabeça ereta e fazer um esforço consciente para deglutir, a fim de controlar o acúmulo de saliva.
  • Monitorar semanalmente o peso do paciente.
  • Fornecer alimentação suplementar e, com a evolução da doença, alimentação por sonda.
  • Consultar um nutricionista sobre as necessidades nutricionais do paciente.

Melhora da comunicação:

  • Lembrar ao paciente para ficar de frente para o ouvinte, falar lentamente e de modo deliberado e exagerar a pronúncia das palavras.
  • Instruir a falar com frases curtas e a respirar várias vezes antes de falar.
  • Solicitar o acompanhamento de um fonoaudiólogo para ajudar o paciente.

Apoio das capacidades de enfrentamento:

  • Incentivar a adesão a um programa de exercícios físicos e caminhadas, enfatizar atividades que estão sendo mantidas durante a participação ativa.
  • Fornecer estímulos e tranquiliza-lo de modo contínuo.
  • Ajudar e incentivar a estabelecer metas possíveis de realização.
  • Incentivar a executar tarefas diárias para manter a independência.

Orientação sobre o autocuidado domiciliar e comunitário:

  • É essencial a explicação clara sobre a doença e as metas para ajudar o paciente a permanecer independente o máximo de tempo possível. Tanto o paciente quanto a família precisam ser instruídos sobre os efeitos terapêuticos e os colaterais dos medicamentos e a importância de informar ao médico esses efeitos.

Cuidado continuado:

  • Reconhecer o estresse pelo qual a família está passando, por estar vivendo com um familiar portador de incapacidade.
  • Incluir o cuidador no plano e aconselhá-lo a aprender técnicas de redução do estresse, lembrar ao cuidador para incluir outras pessoas no processo de cuidar, obter alívio periódico das responsabilidades e submeter-se a uma avaliação anual de saúde.
  • Permitir aos familiares expressar sentimentos de frustração, raiva e culpa;
  • Lembrar o paciente e os familiares sobre a importância de abordar as necessidades de promoção da saúde, como triagem para hipertensão e risco de acidente vascular encefálico.

A Doença de Parkinson pode interferir nos relacionamentos interpessoais, pois, devido ao desconhecimento da doença, pode causar timidez, vergonha, baixa autoestima, insegurança e isolamento social. O adequado conhecimento é fundamental para a manutenção dos relacionamentos interpessoais com amigos e familiares para que não exista o isolamento do paciente em seu domicílio. Toda a assistência tem como objetivo melhorar a qualidade de vida desses pacientes.

 

REFERÊNCIAS

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