O que um profissional de saúde necessita saber sobre vacina?

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De maneira simples e objetiva falaremos sobre alguns aspectos que envolvem as vacinas hoje disponíveis no calendário vacinal preconizado pelo Ministério da Saúde no estado de São Paulo, cada estado possui uma perfil epidemiológico e o calendário pode se apresentar com vacinas e esquema diferente.

A palavra vacina, que em latim (vaccínia)significa “de vaca”, por analogia, passou a designar todo o inóculo que tem capacidade de produzir anticorpos.

A imunização é de importância fundamental para saúde pública, sendo garantida pela Lei 6.259 de 30 de outubro de 1975, a qual institucionalizou o Programa Nacional de Imunizações – PNI – criado em 1973, sob responsabilidade do Ministério da Saúde. Este programa é referência para a saúde pública em todo o mundo.

COMO SURGIU A VACINA?

Edward Jenner descobriu a vacina antivaríolica por meio de um experimento em que inoculou uma secreção de um indivíduo acometido pela doença em outra pessoa saudável, a qual desenvolveu sintomas muito mais brandos e tornou-se imune à doença. Jenner desenvolveu a vacina a partir de outra doença, a cowpox (tipo de varíola que acometia as vacas), pois observou que as pessoas que ordenhavam as vacas adquiriam imunidade à varíola humana.

Sendo assim a vacina é um produto farmacêutico que contem um ou mais agentes imunizantes que estimulam o organismo a produzirem anticorpos que podem combater doenças infecciosas  causadas por vírus ou bactérias. Nosso organismo ao entrar em contato com algum germe desenvolve anticorpos (células de defesa). Sendo assim a vacina faz com que seu organismo produza este anticorpos sem você ter contato com a doença apresentando o agente patogênico sem o desenvolvimento da doença.


QUAIS SÃO OS TIPOS IMUNIZAÇÃO?

  • Imunidade ativa artificial: estimula a produção de anticorpos pelo organismo (resposta do hospedeiro a um antígeno) por meio da administração de antígenos (vacina). Dessa forma uma resposta imunitária primária, na qual o organismo é desafiado a produzir anticorpos e célula de defesa especifica para combater este agente que foi introduzido no organismo.
  • Imunidade ativa natural: desenvolvida a partir de um processo infeccioso (doença ativa) por meio da produção de anticorpos, células efetoras e de memória específicas ao patógeno.
  • Imunidade passiva natural: anticorpos transferidos pelo leite materno ou por via placentária (via vertical), garantindo imunidade ao recém-nascido, porém não confere memória imunológica.
  • Imunidade passiva artificial: quando o desenvolvimento da imunidade é conferida pela administração de anticorpos produzidos por outro organismo. Este método de imunização é realizado por meio da administração de soro com anticorpos e também não proporciona memória imunológica.

TIPOS DE AGENTES IMUNIZANTES

A vacina é um imunobiológico que pode conter um ou mais agentes imunizantes, podendo ser descritas quanto à sua natureza ou composição.

  • Natureza: vacinas de forma isolada ou combinada cujos antígenos podem ser provenientes de diversos patógenos: bactérias ou vírus vivos atenuados, vírus inativados, bactérias mortas e componentes de agentes infecciosos podendo ser modificados química ou geneticamente.
  • Composição: na constituição de uma vacina existem outros agentes como água destilada, solução salina fisiológica, proteínas, componentes originados de meio de cultura, conservantes, estabilizadores, pequenas quantidades de substâncias antibióticas ou germicidas (para evitar o crescimento de outros patógenos), estabilizadores (vacinas constituídas por agentes infecciosos vivos atenuados) e adjuvantes.

ASSOCIAÇÃO DE VACINAS

É comum em um único atendimento a administração de vários agentes imunizantes. Esta conduta é normal, visto que facilita a operacionalização do esquema, reduz o número de contato da pessoa com o serviço de saúde, imuniza o indivíduo contra um maior número de doenças. Cabe ressaltar que essa estratégia não aumenta o risco de evento adverso, bem como não compromete a resposta imunológica. Isto posto, a associação pode ser:

  • Combinada: quando as combinações de agentes encontram-se no mesmo produto como, por exemplo, a vacina DTP (difteria, tétano e pertussis – coqueluche) a SCR – tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e a tetraviral (sarampo, rubéola, caxumba e varicela)
  • Simultânea: quando diversas vacinas são administradas em diferentes locais ou por diferentes vias como, por exemplo, o esquema da vacina BCG (via intradérmica) e da hepatite B que são administradas na mesma oportunidade ao nascer..

REDE OU CADEIA DE FRIO

Refere-se ao processo de armazenamento, conservação, manipulação, distribuição e transporte que garante a preservação das características iniciais  dos imunobiológicos ao serem administrados, tendo em vista sua termolabilidade (característica de substâncias que se decompõem com a exposição a determinadas temperaturas). Portanto, é necessário o cumprimento de normas do produto para garantia da qualidade na aplicação da vacina.

CONSERVAÇÃO DAS VACINAS

As vacinas devem estar conservadas em temperatura entre +2 ºC e +8 ºC. O controle da temperatura é realizado em impresso próprio, determinado pela COVISA. O profissional da sala de vacina deve estar sempre atento à temperatura da geladeira e notificar caso apresente temperatura fora do padrão estabelecido.

O prazo de validade do frasco de multidose normalmente é de 7 dias , mas deve ser levado em consideração orientações do fabricante.

Para vacinas como BCG e SCR -tríplice viral (sarampo-caxúmba-rubéola o prazo de validade é de 6 horas após o preparo da vacina.

CONTRAINDICAÇÕES

  • Pessoas que apresentaram reações anafiláticas a qualquer componente da vacina ou a dose anterior.
  • Vacinas de bactérias atenuadas ou vírus vivo atenuado não devem ser administradas em gestantes (salvo em situações de alto risco de exposição a algumas doenças virais imunopreveníveis como, por exemplo, febre amarela).
  • Imunodeficiência congênita ou adquirida.
  • Uso de corticoides em dose alta por tempo prolongado ou outras terapias imunossupressoras como quimioterapia e radioterapia.

Como existem diversos tipos e graus de comprometimento da resposta imunológica, há recomendações específicas para cada uma dessas condições. Recomendamos consultar o Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para manejo da infecção pelo HIV em crianças e adolescentes, Protocolo Clinico e Diretrizes Terapêuticas para manejo da infecção HIV em adultos, disponível em www.saude.gov.br (Anexo IV).

SITUAÇÕES EM QUE SE RECOMENDA O ADIAMENTO DA VACINAÇÃO

  • Até três meses, após o tratamento com imunodepressores ou com corticosteroides em dose alta. Esta recomendação é válida inclusive para vacinas de componentes e de organismos mortos ou inativados.
  • Administração de imunoglobulina ou de sangue e derivados.
  • Durante a evolução de doenças agudas febris graves, sobretudo para que seus sinais e sintomas não sejam atribuídos ou confundidos com possíveis efeitos adversos das vacinas.
  • Doenças leves não contraindicam imunização ativa. Nos casos de febre com temperatura axilar maior ou igual a 37,5 °C, a vacinação deve ser adiada, a não ser que a condição epidemiológica ou a situação de risco pessoal torne necessária.

FALSAS CONTRAINDICAÇÕES

  • Afecções comuns como doenças infecciosas ou alérgicas do trato respiratório superior com tosse e/ou coriza; diarreia leve ou moderada; doenças da pele (lesões impetiginosas esparsas; escabiose).
  • História e/ou diagnóstico clínico pregressos da doença no que diz respeito aplicação da respectiva vacina.
  • Desnutrição.
  • Uso de qualquer tipo de antimicrobiano.
  • Vacinação contra a raiva.
  • Doença neurológica estável (exemplo: convulsão controlada) ou pregressa com sequela presente.
  • Antecedente familiar de convulsão.
  • Tratamento sistêmico com corticosteroides nas seguintes situações: curta duração (inferior a duas semanas) independentemente da dose; doses baixas ou moderadas, independentemente do tempo; tratamento prolongado, em dias alternados, com corticosteroides de ação curta; .doses de manutenção fisiológica.
  • Alergias (exceto as de caráter anafilático) relacionadas com os componentes das vacinas.
  • Reação cutânea ao timerosal.
  • Prematuridade ou baixo peso ao nascimento. Nestes casos não se deve adiar o início da vacinação (exceção: vacinas BCG e hepatite B).
  • Internação hospitalar. Esta é uma ótima oportunidade para atualizar o esquema de vacinações, desde que não haja contraindicação formal.

EVENTOS ADVERSOS PÓS-IMUNIZAÇÕES

Algumas manifestações são esperadas após o emprego de determinadas vacinas. Normalmente,  essas reações são benignas e têm evolução autolimitada (exemplo: febre após vacinação, dor e edema em local da aplicação de vacina injetável).
Raramente, podem ocorrer formas mais graves, mas qualquer reação pós-imunização que não se enquadra nas reações já esperadas devem ser notificadas em impresso próprio (Ficha de notificação e investigação de eventos adversos) presente na sala de vacina, onde deve constar a vacina aplicada, data, dose, local de aplicação, sintomas apresentados, relatório de avaliação médica. ,Esse documento deve ser encaminhado para a SUVIS ( Supervisão de Vigilância em Saúde) para avaliação.

CRIE (CENTRO DE REFERÊNCIA DE IMUNOBIOLÓGICOS ESPECIAIS)

O CRIE presta atendimento e orientação em caso de necessidade de administração de imunobiológicos especiais. Para que isto aconteça, conta com assistência laboratorial e hospitalar. Um dos objetivos é assistir portadores de quadros clínicos especiais e a ofertar imunobiológicos para aqueles que apresentam contraindicação à utilização dos produtos disponíveis na rede pública de saúde.

Como citado anteriormente, quando um indivíduo apresenta reações graves após administração de imunobiológicos a unidade básica de saúde, preenche-se a ficha de notificação e investigação de eventos adversos, após avaliação pela SUVIS da região, e esse paciente será  referenciado ao CRIE para uso de imunobiológicos especiais.
Sendo assim, algumas situações indicam o uso de imunobiológico nos CRIEs, como:

  • Asplenia anatômica ou funcional, hemoglobinopatias, doenças de depósito e outras condições associadas à disfunção esplênica.
  • Pessoas imunocompetentes.
  • Pessoas que apresentaram eventos adversos pós-vacinais graves.
  • Pessoas alérgicas a soros heterólogos.
  • Pessoas com doenças hemorrágicas.
  • Imunodeficiências congênitas.
  • Imunodeficiência Adquirida – HIV/AIDS.
  • Imunodeficiências devido ao câncer ou à imunodepressão terapêutica.
  • Transplantes de órgãos sólidos.
  • Transplante de células-tronco hematopoiéticas (medula óssea).
  • Trissomias.

 

CALENDÁRIOS VACINAIS NOS CICLOS DE VIDA

Calendário Vacinal da Criança do Estado de São Paulo (BRASIL, Ministério da Saúde, 2017)

 

Considerações Importantes:

  • Vacina da BCG – caso não tenha sido administrada na maternidade, deve ser aplicada na primeira visita ao serviço de saúde, o profissional que aplica está vacina deve ser devidamente treinado para esse tipo de administração.
  • Hepatite B – a primeira dose da vacina deve ser administrada nas primeiras 12 horas de vida. Caso não tenha sido feita , deve ser feita na primeira visita ao serviço de saúde , caso a criança esteja com 6 semanas de vida , administrar vacina pentavalente.
  • VORH – 1ª dose deve ser realizada com dois meses. A idade mínima para administração desta dose é de um mês e 15 dias e a idade máxima é de três meses e 15 dias. A 2ª dose deve ser aplicada aos quatro meses de idade. A idade mínima para administração desta dose é de três meses e 15 dias e a idade máxima é de sete meses e 29 dias.
  • A vacina DTP (difteria, tétano e coqueluche) só pode ser administrada em crianças até seis anos, 11 meses e 29 dias. A partir dos sete anos de idade, utilizar a vacina dupla adulto.
  • A vacina tetraviral deverá ser administrada em crianças que já receberam uma dose de sarampo-caxumba-rubéola e poderá ser realizada até 4 anos 11 meses e 29 dias.
  • Vacina Hepatite A poderá der administrada até 4 anos 11 meses e 29 dias caso não tenha sido feita anteriormente. 

Calendário Vacinal da criança com 7 anos ou mais e  Adolescentes

Considerações Importantes

  • *Adolescência - período entre 10 a 19 anos de idade. Caso a pessoa apresente documentação com esquema de vacinação incompleto, é suficiente completar o esquema iniciado.
  • A vacina BCG é indicada para pessoas até 15 anos de idade.
  • Caso o adolescente tenha recebido três ou mais doses das vacinas DTP, DT, dT, aplicar uma dose de reforço, se decorridos 10 anos da última dose.
  • Vacina papilomavírus humano 6, 11, 16, 18 (recombinante) com intervalo mínimo entre a primeira e a segunda dose é de seis meses;
  • O intervalo mínimo entre a primeira e a segunda dose da vacina hepatite B é de quatro semanas.
  • O intervalo para a terceira dose da vacina hepatite B pode ser de dois meses após a segunda, desde que o intervalo de tempo decorrido da primeira dose seja de, no mínimo, quatro meses.
  • Febre amarela para aqueles que residem ou viajam para regiões onde houver indicação, de acordo com a situação epidemiológica.
  • Na profilaxia do tétano após alguns tipos de ferimentos, deve-se reduzir este intervalo para cinco anos.
  • A vacinação para HPV para meninas deverá ser realizada de 9 anos até 14 anos 11 meses e 29 dias e para meninos 12 a 13 anos 11 meses e 29 dias.

Calendário Vacinal para Adultos (20 a 59 anos)

Considerações Importantes

  • Vacina Dupla Adulto – reforço a cada dez anos. Na profilaxia do tétano após alguns tipos de ferimentos, deve-se reduzir este intervalo para cinco anos.
  • Vacina Febre Amarela - para aqueles que residem ou viajam para regiões onde houver indicação, de acordo com a situação epidemiológica.
  • Hepatite B - O intervalo mínimo entre a primeira e a segunda dose da vacina hepatite B é de quatro semanas, o intervalo para a terceira dose da vacina pode ser de dois meses após a segunda, desde que o intervalo de tempo decorrido da primeira dose seja, no mínimo, de quatro meses.
  • Vacina Influenza – conforme público de risco estabelecido pelo Ministério da Saúde.
  • A vacina Triplice Viral ( Sarampo-Caxumba-Rubeola) devera ser aplicada em 2 doses para pessoas de 12 meses até 29 anos 11 meses e 29 dias , em cidadãos de 30 a 49 anos 11 meses e 29 dias deverá ser aplicada apenas 1 dose.
  • Resolução SS – 49 de 06 de junho de 2016 – Diário Oficial do Estado de São Paulo

 

Calendário Vacinal para Gestante

Considerações Importantes

  • Caso a pessoa apresente documentação com esquema de vacinação incompleto, é suficiente completar o esquema iniciado.
  • Caso a gestante ou puérpera tenha recebido três ou mais doses das vacinas DTP, DT, dT, aplicar uma dose de reforço com a vacina dTpa.
  • O intervalo mínimo entre a primeira e a segunda dose da vacina hepatite B é de 30 (trinta) dias, o intervalo para terceira dose da vacina hepatite B pode ser de dois meses após a segunda, desde que o intervalo decorrido da primeira dose, a dose seja, no mínimo, de quatro meses.
  • no mínimo, de quatro meses.
  • A vacina dTpa deve ser administrada preferencialmente a partir da 20ª semana de cada gestação, gestantes com início de esquema de vacinação tardio devem receber a dTpa na primeira ou segunda visita se necessário, complementando o esquema com dT, caso a gestante não tenha recebido dTpa na gestação a vacina deverá ser aplicada até 45 dias após o parto
  • Administrar vacina Influenza no período de puerpério caso a vacina não tenha sido aplicada durante a gestação.
  • Caso a vacina não tenha sido aplicada na maternidade, administrar durante a primeira visita ao serviço de saúde. Observar a necessidade de agendar a segunda dose para puérperas adolescentes.
  • Resolução SS – 49 de 06 de junho de 2016 – Diário Oficial do Estado de São Paulo

 

Calendário Vacinal para Idoso

Considerações Importantes

  • Caso a pessoa apresente documentação com esquema de vacinação incompleto, é suficiente completar o esquema iniciado.
  • Iniciar esquema vacinal caso não possua comprovação de esquema vacinal.

 

 

“Este Artigo foi desenvolvido com base nas informações da Norma Técnica de Imunização – CVE 2016 e devem ser levadas em consideração possíveis mudanças conforme orientação do Ministério da Saúde”.

 

REFERÊNCIAS

Norma Técnica do Programa de Imunização – São Paulo 2016[online].2016 Disponível em: ftp://ftp.cve.saude.sp.gov.br/doc_tec/imuni/2016_norma_imunizacao.pdf

Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação- Ministério da Saúde [online].2014 Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_procedimentos_vacinacao.pdf

Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais – 4 edição – Ministério da Saúde [online].2014 Disponivel em: http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/-01VACINA/manual_crie_.pdf

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