Neuralgia do Trigêmeo (Tique Doloroso)

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A neuralgia do trigêmeo é uma condição que acomete o quinto nervo craniano (ou nervo trigêmeo) e caracteriza-se por um ápice de dor na área inervada por qualquer um dos três ramos. No entanto, a dor é mais intensa nas regiões inervadas pelo segundo e terceiro ramos do trigêmeo. A dor termina tão abruptamente quanto começa e é descrita como uma sensação de descarga e pontada unilateral, que constitui uma característica importante. Os intervalos sem dor podem durar minutos, horas ou dias e com o passar dos anos, os episódios dolorosos tendem a se tornar mais agonizantes e frequentes (Figura 1).

Figura 1 - Distribuição dos ramos do nervo trigêmeo.

Essa condição é originalmente conhecida como Tique Doloroso (tic douloureux), pois um dos sintomas é a contração involuntária dos músculos da face que pode causar contrações da boca ou fechamento súbito do olho. Ainda não se sabe ao certo a sua etiologia, porém a compressão vascular constitui causas prováveis, ocorrendo em pessoas com idade em torno de 35 anos, além de ser mais prevalente em mulheres e pessoas portadoras de esclerose múltipla (EM) quando comparado à população geral. Logo, pessoas diagnosticadas em idade precoce devem ser avaliadas para EM.

Manifestações

Os ápices de dor podem ocorrer por qualquer estimulação das terminações dos ramos nervosos afetados como escovar os dentes, fazer a barba, lavar a face, comer e beber. Uma corrente de ar frio ou uma pressão direta contra o tronco nervoso também podem causar dor. Com isso, os pacientes com neuralgia do trigêmeo evitam realizar as atividades citadas acima e esse comportamento fornece pistas para o diagnóstico.

Terapia Farmacológica

Para aliviar a dor dos pacientes, são utilizados agentes anticonvulsivantes, como a carbamazepina (Tegretol), pois reduzem a transmissão de impulsos em determinadas terminações nervosas. Em pacientes que necessitam de doses altas para controlar a dor, os níveis séricos precisam ser monitorados para evitar a toxicidade. Os efeitos colaterais desses agentes são: náuseas, tonturas, sonolências e anemia anaplásica. O paciente é monitorado quanto à depressão da medula óssea durante a terapia a longo prazo. Como alternativa, é utilizada a gabapentina (Neurontin) e o baclofeno (Lioresal) e caso o controle da dor ainda não for obtido, pode-se utilizar a fenitoína (Dilantin) como terapia adjuvante.

Tratamento Cirúrgico

Se o tratamento farmacológico não conseguir aliviar a dor, dispõe-se de opções cirúrgicas. Esses procedimentos aliviam a dor facial durante alguns anos, porém as chances de recidiva e de complicações são elevadas. A escolha do procedimento depende da escolha e do estado de saúde do paciente.

- Descompressão Microvascular do Nervo Trigêmeo: utiliza-se uma abordagem intracraniana para aliviar o contato entre o vaso cerebral e o ponto de entrada da raiz do nervo trigêmeo. O tratamento pós-operatório é idêntico àquele de outras cirurgias intracranianas.

- Coagulação Térmica por Radiofrequência: a radiofrequência percutânea produz uma lesão térmica no nervo trigêmeo. Embora haja alívio imediato da dor, podem ocorrer disestesia da face e perda do reflexo corneano. A ressonância magnética estereotáxica para a identificação do nervo trigêmeo, seguida de radiocirurgia com bisturi gama, está sendo usada em alguns centros médicos.

- Microcompressão por Balão Percutânea: A microcompressão por balão percutânea rompe as grandes fibras mielinizadas em todos os três ramos do nervo trigêmeo.

Cuidados de enfermagem

- Reconhecer junto ao paciente os fatores que causam a dor facial (alimentos ou água quentes ou frios, movimentos bruscos, entre outros).

- Avaliar a dor não somente com instrumentos unidimensionais (intensidade), como também com ferramentas que investiguem o impacto da dor crônica na vida do paciente (p. ex., Escala de McGuill).

- Orientar o paciente sobre maneiras de reduzir o desconforto, como a utilização de algodão e água à temperatura ambiente para lavar o rosto.

- Reconhecer que a depressão, ansiedade e insônia frequentemente acompanham condições dolorosas crônicas e utilizar intervenções e encaminhamentos apropriados.

- Sugerir ao paciente a mastigar do lado não afetado, a consumir alimentos de consistência macia e em temperatura ambiente, assim como os líquidos.

- Orientar o paciente a enxaguar a boca após alimentar-se (caso a escovação dos dentes cause muito dor) e realizar a higiene pessoal durante os intervalos sem dor.

- Realizar cuidados pós-operatórios acompanhando os exames neurológicos para avaliar as condições motoras e sensoriais faciais.

- Orientar o paciente a não esfregar o olho se a cirurgia resultar em perda sensorial no lado afetado da face, pois o mesmo não sentira dor se ocorrer alguma lesão.

- Utilizar lágrimas artificiais para evitar o ressecamento do olho afetado, conforme prescrição.

- Aconselhar o paciente a não mastigar do lado afetado até que a dormência tenha diminuído.

- Observar o paciente a procura de qualquer dificuldade na ingestão e deglutição de alimentos de consistência diferente.

 

REFERÊNCIAS

COSTA, G. M. F.; LEITE, C. M. A. Trigeminal neuralgia: peripheral and central mechanisms. Rev. Dor , São Paulo, v. 16, n. 4, p. 297-301, out. 2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rdor/v16n4/pt_1806-0013-rdor-16-04-0297.pdf>. Acesso em: 14 jun. 2018.
LUNA, E. B. et al. Aspectos anatômicos e patológicos da neuralgia do trigêmeo: uma revisão da literatura para estudantes e profissionais da saúde. Biosci. J , Uberlândia, v. 26, n. 4, p. 661-674, jul. 2010. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/biosciencejournal/article/viewFile/7138/5182>. Acesso em: 14 jun. 2018.
SMELTZER SC, Bare BG. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 12 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. vol. I e II.

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