Hanseníase – O que o profissional de Enfermagem precisa saber

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A hanseníase é uma das enfermidades mais antigas do mundo. Seu aparecimento é relatado em papiros há cerca de 4300 a.C. Estudos mais recentes apontam o surgimento da hanseníase na África Oriental e Oriente Médio, espalhando-se por meio das constantes migrações populacionais da humanidade. Quanto à sua chegada nas Américas, acredita-se que foi introduzida pelos europeus ou pelos norte-africanos.

Três países com grandes populações — Índia, Brasil e Indonésia — notificam mais de 10.000 novos pacientes anualmente. Juntos, esses três países representam 81% dos pacientes recém-diagnosticados e notificados no mundo. No Brasil, apesar de uma redução de 65% na taxa de prevalência nos últimos 10 anos, ainda é uma doença endêmica com taxa variável entre os gêneros e diferentes estados do país. No ano de 2016, a taxa de prevalência nacional foi de 1,10/10 mil habitantes, verificando-se três regiões brasileiras com média muito acima da nacional: Norte (2,37), Nordeste (1,77) e Centro Oeste (2,91).

Aspectos clínico-epidemiológicos

Descrição: doença crônica, proveniente de infecção causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, que tem a capacidade de infectar grande números de indivíduos (alta infectividade), no entanto poucos adoecem (baixa patogenicidade). Tem cura e evolução lenta, porém, quando não tratada adequadamente, pode levar o indivíduo a uma condição crônica como danos neurológicos e sequelas.

Reservatório: o ser humano, reconhecido como única fonte de infecção.

Modo de transmissão: predominantemente pela mucosa das vias aéreas superiores, por meio de aerossóis e secreções nasais, por um doente sem tratamento para outra pessoa do seu convívio.

Período de incubação: em média de 2 a 7 anos, não obstante haja referências a períodos mais curtos, de 7 meses, como também mais longos, de 10 anos.

Período de transmissibilidade: os pacientes multibacilares (MB) podem transmitir a infecção enquanto o tratamento especifico não for iniciado.

Características epidemiológicas: tem baixa letalidade e baixa mortalidade, podendo ocorrer em qualquer idade, raça ou gênero. No entanto, o sexo masculino apresentou maior taxa de prevalência no Brasil no período de 2008 a 2015. Observa-se relação entre endemicidade e baixo índice de desenvolvimento humano.

Definição de caso: toda pessoa que apresenta um ou mais critérios listados a seguir, com ou sem história epidemiológica e que requer tratamento quimioterápico especifico:

  • a) lesão(ões) e/ou área(s) da pele com alteração da sensibilidade térmica e/ ou dolorosa e/ou tátil; ou
  • b) espessamento de nervo periférico, associado a alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas; ou
  • c) presença de bacilos Mycobacterium leprae, confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele.

Diagnóstico: clínico e epidemiológico, realizado por meio da anamnese, exame geral e dermatoneurólogico para identificar lesões ou áreas de pele com alteração de sensibilidade e/ou comprometimento de nervos periféricos, com alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas.

Deve-se utilizar a classificação operacional do caso de Hanseníase, visando definir o tratamento poliquimioterápico (PQT) que se baseia no número de lesões cutâneas de acordo com os seguintes critérios:

Paucibacilar (PB) – casos com até 5 lesões de pele.

Multibacilar (MB) – casos com mais de 5 lesões de pele.

Exame baciloscópico: a baciloscopia de pele (esfregaço intradérmico), quando disponível, deve ser utilizado para a classificação dos casos de PB e MB. Resultado positivo classifica o caso como MB, independentemente do número de lesões. *Resultado negativo não exclui o diagnóstico de hanseníase.

Tratamento: o tratamento com PQT é ambulatorial, utilizando-se esquemas terapêuticos padronizados, de acordo com a classificação operacional, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Duração: seis cartelas em até nove meses. Comparecimento mensal para dose supervisionada.

Critério de alta: o tratamento está concluído com seis cartelas em até nove meses. Na dose supervisionada, os doentes devem ser submetidos ao exame dermatológico, à avaliação neurológica simplificada e do grau de incapacidade física para receber alta por cura.

Duração: 12 cartelas em até 18 meses. Comparecimento mensal para dose supervisionada.

Critério de alta: o tratamento estará concluído com 12 cartelas em até 18 meses. Na 12ª dose supervisionada, os doentes devem ser submetidos ao exame dermatológico, à avaliação neurológica simplificada e do grau de incapacidade física para receber alta por cura.

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*Confira neste link mais informações referentes a situações especiais, esquemas terapêuticos substitutivos e crianças com peso inferior a 30 kg.

Complicações, reações hansênicas: os estados reacionais ou reações hansênicas são complicações do sistema imunológico, que se exteriorizam como manifestações infamatórias. Podem ocorrer antes, durante ou depois do tratamento com PQT.

Vigilância Epidemiológica

Doença de notificação compulsória em todo território nacional e de investigação obrigatória. Considera-se caso novo de hanseníase a pessoa que nunca recebeu qualquer tratamento específico para a doença. A notificação deve ser realizada na semana epidemiológica da ocorrência do diagnóstico, através da Ficha de Notificação/Investigação da Hanseníase do Sistema de Informação de Agravos e Notificação (Sinan).

Medidas de controle: a investigação epidemiológica tem como objetivo a descoberta de doentes e é feita por meio de:

- Atendimento da demanda espontânea;

- Busca ativa de casos novos;

- Vigilância de contatos.

Vigilância de casos de recidiva: os casos de recidiva são raros em pacientes tratados regularmente. Geralmente, ocorrem em período superior a cinco anos após a cura. É considerado recidiva aquele paciente que completar com êxito o tratamento PQT e que depois venha, eventualmente, desenvolver novos sinais e sintomas da doença. Neste caso, deve-se preencher a “ficha de intercorrências pós-alta por cura” (Anexo VI, da Portaria SVS/SAS/ MS n˚125/2009) e remeter a secretaria municipal de saúde, juntamente com a ficha do Sinan.

Prevenção de incapacidade: todos os casos, independentemente da forma clínica, deverão ser avaliados quanto ao grau de incapacidade no momento do diagnóstico e, no mínimo, uma vez por ano, inclusive na alta por cura.

Vacinação BCG (bacilo de Calmette-Guërin): a vacina BCG-ID deverá ser aplicada nos contatos intradomiciliares, sem presença de sinais e sintomas de Hanseníase, independentemente de serem contatos de casos PB ou MB. A aplicação depende da história vacinal:

* Todo contato de hanseníase deve ser informado que a vacina BCG não é específica para hanseníase.

Educação em saúde

A comunicação e educação em saúde é um dos componentes estruturantes do Programa Nacional de Controle da Hanseníase, compreendendo três eixos: ações de comunicação em saúde, educação permanente e mobilização social. Essas ações devem ser conduzidas sempre consonância com as políticas vigentes, visando, prioritariamente: incentivar a demanda espontânea de doentes e contatos nos serviços de saúde para exame dermatoneurológico; eliminar falsos conceitos relativos à hanseníase; informar quanto aos sinais e sintomas da doença, importância do tratamento oportuno; adoção de medidas de prevenção de incapacidades; estimular a regularidade do tratamento do doente e a realização do exame de contatos; informar os locais de tratamento; além de orientar o paciente quanto às medidas de autocuidado.

 

Referências

ALENCAR, L.; CUNHA, M. Doença de Hansen no Brasil: monitorização das incapacidades Hansen’s Disease in Brazil: Monitoring of disabilities la lepra en Brasil: Monitoreo de las discapacidades. Millenium, Portugal, v. 2 n. 3, p. 63-73, 2017. Disponível em: <http://revistas.rcaap.pt/millenium/article/viewFile/12062/9417>. Acesso em: 14 jan. 2018.
ASSIS, L. P. F. et al. Avaliação dos indicadores epidemiológicos para a hanseníase no Brasil, 2008 a 2015. Revista Educação em saúde, v. 5, n. 1, p. 6-14, 2017. Disponível em: <http://revistas.rcaap.pt/millenium/article/viewFile/12062/9417>. Acesso em: 14 jan. 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Diretrizes para vigilância, atenção e eliminação da Hanseníase como problema de saúde pública: manual técnico-operacional. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. 58 p. Disponível em: <http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/DiretrizesdoManuaTcnicoOperacionaldeHansenase.pdf>. Acesso em: 13 jan. 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Capacitação para profissionais da Atenção Primária em Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. Disponível em: <http://www.dive.sc.gov.br/conteudos/agravos/capacitacoes/capacitacao-para-profissionais-da-atencao-primaria-em-saude.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2018.
WHO. Estratégia mundial de eliminação da lepra 2016-2020: Acelerar a ação para um mundo sem lepra. 2016. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/208824/17/9789290225201-pt.pdf>. Acesso em: 14 jan. 2018.

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