Esquistossomose: Precisamos nos preocupar?

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O enfermeiro tem um papel fundamental na assistência à saúde desde a promoção da saúde à prevenção de agravos e reabilitação. Especialmente na Atenção Básica, o enfermeiro possui uma posição privilegiada para educação em saúde individual ou coletiva. Dessa forma, conhecer as nuances de doenças que possuem forte relação com determinantes sociais da saúde é fundamental. No post de hoje falaremos sobre a esquistossomose.

Esquistossomoses, esquistossomíases, também conhecidas popularmente de xistosa, xistossomose, bilharziose, moléstia de Pirajá da Silva, doença dos caramujos ou “barriga d’água”, são doenças que possuem como etiologia os platelmintos trematódeos digenéticos do gênero Schistosoma, sendo que os principais agentes etiológicos para o homem são as espécies: S. mansoni, S. haematobium e S. japonicum. No Brasil, a única espécie descrita é a S. mansoni devido à inexistência de moluscos suscetíveis aos demais helmintos.

É uma parasitose que afeta cerca de 200 milhões de indivíduos em 76 países da África, Ásia e América. Sua presença reflete o baixo nível social, além de que a presença desta parasitose é “o espelho da pobreza e das baixas condições sanitárias”. Vale destacar que a esquistossomose associada à desnutrição é um problema bastante significativo para a Saúde Pública, vitimando jovens e adultos em idade produtiva das regiões Nordeste e Sudeste brasileiros.

Ciclo Biológico e Transmissão

O S. mansoni assume várias formas nas diversas fases de seu ciclo evolutivo: vermes adultos, ovos, miracídios, esporocistos, cercárias e esquistossômulos (Figura 1). Os hospedeiros intermediários são moluscos do gênero Biomphalaria (B. glabrata, B. tenagophila, B. straminea) e o habitat do verme adulto são as vênulas do plexo hemorroidário superior e nas ramificações mais finas das veias mesentéricas inferiores.

No hospedeiro definitivo vertebrado, quando o S. mansoni evolui para a forma adulta, macho e fêmea copulam, ocorrendo a fecundação da fêmea, a qual migra contra a corrente sanguínea e inicia a postura dos ovos na submucosa dos vasos de menor calibre da parede intestinal. Alguns ovos são liberados na corrente sanguínea, outros chegam à luz intestinal.

Após tornarem-se maduros, os ovos contendo o miracídio formado, vão para o exterior juntamente com o bolo fecal e ao atingirem a água, liberam o miracídio que podem penetrar indistintamente em vários moluscos vetores. Todavia, apenas os que penetrarem nas espécies suscetíveis de Biomphalaria irão se desenvolver, visto que é onde passam por mudanças morfofisiológicas, originando esporocistos primários, os quais se transformam em esporocistos secundários que darão origem a milhares de cercárias por meio de um processo denominado poliembrionia, um tipo de reprodução assexuada.

Os moluscos eliminam as cercárias principalmente entre as 11 e 17 horas, horário em que a frequência de banhos nestes ambientes se intensifica e o sol está mais quente. O período do ano de maior índice de transmissão é o verão. A cercária configura-se como verdadeiro elo entre o molusco e o novo hospedeiro, possui longevidade muito curta, não é capaz de se alimentar e nada ativamente à procura do hospedeiro humano. As cercárias podem penetrar na pele íntegra ou lesada, na mucosa bucal ou nasal, mas morrem ao chegar ao estômago e parece não haver atração cercariana por parte do hospedeiro, portanto, o contato com a forma infectante se dá ao acaso e está relacionado com o tempo de permanência do paciente no foco da infecção.

As larvas resultantes do processo de penetração denominam-se esquistossômulos, as quais migram pelo tecido subcutâneo e, ao penetrarem em um vaso, são carreadas passivamente da pele até o coração direito para atingirem os vasos pulmonares, dos quais migrarão para o sistema porta.

Figura 1: Ciclo biológico do S. mansoni

Patogenia, Sintomatologia e Complicações

A patogenia da EM está interligada aos mecanismos imunes do hospedeiro, embora também esteja relacionada a outros fatores como: carga parasitária, cepa ou linhagem do parasito, estado nutricional, idade e nível da resposta imune do paciente. A carga parasitária, por sua vez, é influenciada pelo grau de contato com a água, reflexo das condições socioeconômicas e culturais da população. Destarte, deve-se notar que a morbidade da patologia pode ocasionar déficits tanto da cognição e desenvolvimento intelectual das crianças acometidas quanto à produtividade dos trabalhadores.

As formas da doença podem ser classificadas de acordo com o tipo de reação local e geral, das mudanças trazidas pelo amadurecimento do verme e pela oviposição subsequente, sendo descritas como Esquistossomose aguda e Esquistossomose crônica.

  • Esquistossomose aguda: é uma fase inicial e que apresenta aspectos peculiares, de sorte que o paciente pode desenvolver uma fase cutânea (cercariana) ou uma fase toxêmica ou (migratória), a primeira tem início com a penetração das cercárias na pele e é caracterizada por prurido, erupção urticariforme, eritema, edema e dor. Enquanto que a fase toxêmica ocorre quando da migração dos esquistossômulos acarretando febre, mal-estar, linfadenopatia generalizada, esplenomegalia e hepatomegalia. A literatura demonstra que a fase aguda é mais evidente nos jovens e adultos de áreas não endêmicas que, por ventura, entraram em contato com as cercárias em alguma exposição à infecção, diferentemente da população que vive em regiões endêmicas que não manifestam tal sintomatologia.
  • Esquistossomose crônica: tem início, de fato, quando os vermes adultos iniciam a oviposição nas paredes intestinais do plexo hemorroidário. As formas clínicas que podem se manifestar nessa fase são:
    • Hepática: a apresentação clínica pode ser assintomática ou semelhante à forma hepatointestinal;
    • Hepatointestinal: caracteriza-se por sintomas vagos, com desconforto abdominal, sensação de plenitude gástrica e pirose, acompanhados de um quadro intestinal muito variável (episódios de diarreia e prisão de ventre), flatulência, dolorimento abdominal, astenia e irritabilidade. Ao exame físico, o paciente apresenta fígado palpável com nodulações que nas fases mais avançadas correspondem às áreas de fibrose periportal ou de Symmers;
    • Hepatoesplênica compensada: a característica marcante desta forma é a presença de hipertensão portal, que leva à esplenomegalia e ao aparecimento de varizes esofagianas. Os pacientes queixam-se de má digestão, sensação de plenitude gástrica após refeições, flatulência e dor abdominal difusa, referem pirose e eructação, desânimo, indisposição geral, irritabilidade e nervosismo, além de inapetência e emagrecimento. Ao exame físico encontra-se a hepatoesplenomegalia;
    • Hepatoesplênica descompensada: o quadro clínico é caracterizado por sua gravidade, pois há uma redução acentuada da função hepática, aparecem circulação colateral superficial e grande tendência a complicações.

As complicações decorrem do agravamento do quadro clínico e estão relacionadas a capacidade funcional hepática reduzida onde o paciente pode manifestar ascite, hemorragias e edemas. Pode haver rompimento das varizes esofagianas, bem como formas cardiopulmonares (cor pulmonale), salmoneloses, hepatite B, tumorações esquistossomóticas semelhantes a neoplasias, lesões renais e, por fim, o comprometimento do sistema neurológico (tema que será abordado em nosso próximo artigo).

Profilaxia e Medidas de Controle

O controle da esquistossomose é uma das missões mais complicadas dos serviços de Saúde Pública. A relevância da doença não se limita, apenas, à persistência da prevalência e ampla distribuição geográfica no mundo. Ela diz respeito, também, ao processo de escape do molusco ao moluscicida, baixas condições de saneamento básico e moradia, atividades econômicas ligadas ao uso da água – principalmente em zonas rurais –, elevado tempo para educação sanitária e adesão aos programas de controle. Ademais, deve-se considerar a ineficácia dos mecanismos imunológicos de defesa em eliminar os parasitas, bem como de uma vacina efetiva.

As medidas atualmente recomendadas para a profilaxia da EM são: tratamento em massa da população doente com o objetivo de eliminar a fonte de contaminação; combate ao molusco presente nos focos peridomiciliares; construção de fossas sépticas e rede de esgotos; educação sanitária permanente da comunidade.

O Ministério da Saúde recomenda que os portadores de S. mansoni sejam identificados por meio de investigações coproscópicas e da demanda dos serviços de saúde, além de tratar os portadores para impedir o aparecimento de formas graves da doença.

Atualmente, não existe uma vacina como medida preventiva para a EM, entretanto, estão sendo realizados estudos com resultados promissores, sendo o Brasil um dos países que estão à frente de algumas pesquisas.

A eficácia da luta contra a EM depende principalmente das decisões de alto nível administrativo, do conhecimento dos profissionais de saúde sobre a doença, assim como da organização estratégica, econômica e operacional dos programas de controle. Logo, a EM se trata de um problema muito mais social, econômico e cultural do que médico.

REFERÊNCIAS

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