Cuidados de Enfermagem ao Paciente com Esclerose Múltipla

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A esclerose múltipla (EM) é uma doença crônico-degenerativa que afeta o sistema nervoso central (SNC), sendo caracterizada pela destruição da mielina, proteína essencial para transmissão dos impulsos nervosos. No Brasil, estima-se que a incidência da EM seja cerca de 10 casos a cada 100 mil habitantes.

A EM é conhecida pelos franceses como esclerose em placas e pelos ingleses como esclerose disseminada e foi descrita em 1868 pelo francês Jean Charcot, registrando as áreas endurecidas espalhadas pelo SNC dos pacientes portadores.

É uma das doenças neurológicas mais importantes e preocupantes, pois é crônica e acometem adultos jovens entre 20 a 40 anos de idade, sobretudo as mulheres. A EM afeta a substância branca do SNC, causando múltiplas lesões e atinge grande parte do encéfalo e da medula espinhal. Essas lesões ocorrem devido à destruição da bainha mielina dos neurônios, levando a uma deficiência na condução motora.

É uma doença autoimune na qual as células T ativadas transpassam a barreira hemato-encefálica, iniciando uma resposta inflamatória, conduzindo à desmielinização e lesão axonal. Não é uma doença mental, nem contagiosa e não tem cura.

A causa é pouco conhecida, mas se sugere que possua etiologias multifatoriais como: exposição a fatores estressores, suscetibilidade genética, exposição à luz solar, infecções virais e tabagismo. É predominante em regiões frias ou temperadas. No Brasil, a região sudeste é a que mais apresenta incidência desse diagnóstico.

Evolução da doença

– Benigna – são sintomas muito discretos que por muitas vezes o paciente não procura atendimento.

– Recidivas e remissões (RR) – em torno de 80 a 85% dos casos, nos quais o paciente apresenta recuperação completa entre as recidivas, 50% deles progridem para evolução progressiva secundária, ocorrendo progressão da doença com ou sem recidivas.

– Progressiva primária – (10%) – sintomas incapacitantes que aumentam de modo uniforme, estabilização rara e melhora temporária, sendo que essa evolução pode resultar em tetraparesia, perda visual, disfunção cognitiva e síndromes do tronco encefálico.

– Recidivante progressiva – é menos comum, em média 5% dos casos, é caracterizado por recidivas, com progressão incapacitante contínua entre as exacerbações.

Manifestações

– São variados e múltiplos os sinais e sintomas, refletem a localização da lesão (placa) ou de combinações de lesões.

– Principais sintomas: depressão, fadiga, dormência, fraqueza, perda do equilíbrio, dificuldade de coordenação e dor.

– Distúrbios visuais: diplopia, visão turva, cegueira parcial ou total.

– Fraqueza espástica dos membros e perda dos reflexos abdominais, tremor e ataxia.

– Problemas cognitivos e psicossociais: euforia e fragilidade emocional.

– Podem ocorrer problemas intestinais, vesicais e sexuais.

Complicações – manifestações secundárias

– Constipação intestinal e infecções urinárias.

– Lesões por pressão, edema pendente dos pés e deformidades em contratura.

– Pneumonia.

– Osteoporose e depressão reativa.

– Problemas sociais, conjugais, emocionais e profissionais.

Diagnóstico

– Ressonância magnética é o principal exame complementar para visualizar as placas.

– Eletroforese do líquido cerebrospinal (LCS); anticorpo imunoglobina G anormal (bandas oligoclonais).

– Estudos de potenciais evocados e exames urodinâmicos.

– Testes neuropsicológicos, se indicado, para avaliar o comprometimento cognitivo.

Manejo Clínico

Por ser uma patologia que até o momento não há cura, são traçadas metas de tratamento que consistem em retardar a progressão da doença, tratando os sintomas crônicos e as exacerbações agudas. Indica-se um programa de tratamento individual, no intuito de aliviar os sintomas e proporcionar apoio.

Terapia farmacológica

– São administrados interferonas beta-1a e beta-1b por via subcutânea, outra preparação da interferonas beta-1a é administrada por via intramuscular – uma vez por semana.

– O acetato de glatirâmer é administrado diariamente por via subcutânea, o qual reduz a frequência das recidivas na EM com evolução RR.

– É administrada metilprednisolona IV para tratamento da recidiva aguda com evolução RR.

– Administra-se mitoxantrona por infusão IV a cada três meses, aos pacientes com EM progressiva secundária ou EM com evolução RR que apresenta agravamento.

– O fingolimode pode reduzir em até 50% a taxa de recidiva na EM com evolução RR e a administração é por via oral.

– O baclofeno é um medicamento para tratamento da espasticidade, é possível administrar benzodiazepínicos, dantroleno e tizanidina também para o tratamento da espasticidade.

– São administrados bloqueadores beta-adrenérgicos, benzodiazepínicos e anti-convulcivantes para tratar a ataxia.

– Para problemas relacionados à eliminação, são utilizados fármacos anticolinérgicos, bloqueadores alfa-adrenérgicos ou agentes antiespasmódicos. Inclui-se avaliação para infecção urinária, tratando-se com ácido ascórbico, assim acidificando a urina e se necessário, uso de antibióticos.

Assistência de Enfermagem

Avaliação:

– Avaliar os problemas potenciais e reais ligados à doença como: problemas neurológicos, complicações secundárias e o impacto da doença no paciente e na família.

– Avaliar o paciente na deambulação, quando o mesmo estiver descansado e fatigado,verificar a ocorrência de fraqueza, espasticidade, incontinência, comprometimento visual e distúrbios da deglutição e da fala.

– Verificar de qual modo a EM afetou o estilo de vida do paciente, como o paciente tem enfrentado a situação e o que gostaria de melhorar.

Diagnósticos de enfermagem

– Mobilidade física prejudicada.

– Risco de lesão.

– Incontinência urinária e intestinal.

– Comunicação verbal prejudicada.

– Confusão crônica.

– Enfrentamento ineficaz.

– Desempenho de papel ineficaz.

– Disfunção sexual.

Resultados esperados

– Melhora na mobilidade física.

– Ausência de lesões.

– Melhor controle vesical e intestinal.

– Participação de estratégias para melhora da fala e da deglutição.

– Compensação das alterações nos processos de pensamento.

– Melhora nas estratégias de enfrentamento.

– Adesão ao plano para tratamento de manutenção domiciliar.

– Adaptação às alterações da função sexual.

Intervenções de enfermagem

Mobilidade física

– Motivar o relaxamento e os exercícios de coordenação, assim promovendo a eficiência muscular.

– Estimular exercícios de resistência progressiva, assim fortalecendo os músculos fracos.

– Orientar a fazer caminhada para melhora da marcha.

– Fazer compressas mornas aos músculos espásticos e evitar banhos quentes, devido à perda sensorial.

– Motivar exercícios diários de alongamento muscular, assim minimizando contraturas articulares.

– Incentivar a bicicleta ergométrica, natação e levantamento de peso progressivo, para aliviar a espasticidade nas pernas.

– Orientar o paciente a ter períodos curtos e frequentes de repouso deitado, assim evitando a fadiga extrema.

Prevenção de lesões

– Orientar o paciente a caminhar com os pés separados, assim aumentando a estabilidade da marcha.

– Orientar o paciente a observar os pés enquanto caminha, se houver perda do sentido de posição.

– Disponibilizar uma cadeira de rodas ou triciclo motorizado, caso a marcha continue ineficaz após o treinamento.

– Examinar a pele procurando por úlceras de pressão, se o paciente estiver confinado a cadeira de rodas.

Aumento do controle vesical e intestinal

– Deixar a comadre ou o urinol prontamente disponível.

– Estabelecer horário de micções, aumentando gradualmente os intervalos.

– Orientar o paciente a beber uma determinada quantidade de líquido a cada 2 horas e tentar urinar 30 minutos depois de ingerido.

– Estimular o paciente a tomas os medicamento prescritos para a espasticidade vesical.

– Oferecer líquidos e fibras alimentares em quantidades adequadas e um treinamento intestinal.

Dificuldade da fala e da deglutição

– Solicitar uma avaliação fonoaudióloga.

– Diminuir o risco de aspiração com alimentação cuidadosa, posicionamento correto durante a alimentação e disposição de um aparelho de aspiração.

Função cognitiva e sensitiva

– Ofertar um tapa-olho ou óculos com uma das lentes coberta, assim bloqueando os impulsos visuais de um olho, caso haja diplopia.

– Encaminhar o paciente e a família a um fonoaudiólogo, se houver comprometimento da fala.

– Fornecer apoio emocional ao paciente e a família.

Fortalecimento dos mecanismos de enfrentamento

– Encaminhar o paciente para aconselhamento e apoio, assim minimizando os efeitos adversos do enfrentamento de uma doença crônica.

– Explicar ao paciente e a família sobre a doença.

– Auxiliar o paciente a definir problemas e desenvolver alternativas para o seu manejo.

Melhora do manejo domiciliar

– Aconselhar modificações para possibilitar a independência do paciente nas atividades de autocuidado em domicílio como: modificações no telefone, assento sanitário elevado, pentes com cabo longo, roupas modificadas.

– Manter a temperatura ambiente moderada, pois o calor aumenta a fadiga e a fraqueza muscular e o frio extremo, pode aumentar a espasticidade.

Promoção da função sexual

– Orientar que um especialista possa ajudar o casal nos problemas de disfunção sexual como, por exemplo: distúrbios eréteis e ejaculatórios nos homens, disfunção e espasmos adutores dos músculos da coxa nas mulheres.

O cuidado a esses pacientes deve ser longitudinal, visto que é uma condição em que não há cura. O objetivo da enfermagem é dar suporte e apoio para que o paciente participe do seu processo de autocuidado.

Esperamos que tenham gostado. Até o próximo.

REFERÊNCIAS

BERTOTTI, A. P.; LENZI, M. C. R.; PORTES, J. R. M. O portador de Esclerose Múltipla e suas formas de enfrentamento frente à doença. Barbaroi, Santa Cruz do Sul, v. 43, jun. 2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-65782011000100007>. Acesso em: 23 fev. 2018.
SILVA, D. F.; NASCIMENTO, V. M. S. Esclerose Múltipla: imunopatologia, diagnóstico e tratamento ? artigo de revisão. Interfaces Científicas , Aracajú, v. 2, n. 3, p. 81-90, jun. 2014. Disponível em: <https://periodicos.set.edu.br/index.php/saude/article/view/1447/874>. Acesso em: 23 fev. 2018.
SMELTZER et al. Brunner & Suddarth, Manual de enfermagem médico-cirúrgica / revisão técnica Sonia.Regina de Souza; tradução Patricia Lydie Voeux. – 13. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.

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