Atuação da Enfermagem frente ao paciente com Doença de Alzheimer

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A Doença de Alzheimer (DA) é uma doença neurológica incurável em que as células do cérebro se deterioram de forma lenta e progressiva, provocando atrofia cerebral. Foi descrita pelo psiquiatra e neuropatologista alemão, Alois Alzheimer, em 1906, o qual estudou e publicou o caso de uma paciente de 51 anos que era saudável e iniciou a perda progressiva da memória, distúrbios de linguagem e desorientação, tornando-se incapaz de cuidar-se. Essas alterações tornaram-se algumas das características da doença. Aos 55 anos, quando a paciente evoluiu para o óbito, o Dr. Alois Alzheimer examinou seu cérebro e descreveu as alterações encontradas, as quais consistiam em lesões, regiões atrofiadas, fibras retorcidas e placas estranhas.

Na histopatologia do cérebro desses pacientes, foram observados depósitos fibrilares amiloidais localizados nas paredes dos vasos sanguíneos; acúmulo da proteína beta-amiloide nas placas senis no neurópilo que levam à redução das conexões interneuronais (perda de sinapses), resultando em demência progressiva e irreversível; acúmulo de filamentos anormais da proteína tau nos novelos neurofibrilares; atrofia cerebral difusa, que ocorre perda gradual e irreversível dos neurônios; e degenerações grânulo-vacuolares (Figura 1).

Figura 1 – Comparativo de um cérebro normal com um cérebro com doença de Alzheimer. Fonte: http://meucerebro.com/wp-content/uploads/2014/10/Alzheimer-atrofia.jpg

No Brasil, a estimativa de pessoas com a doença é de 1,2 milhão e no mundo é de 35,6 milhões. No entanto, esse número poderá aumentar consideravelmente devido ao aumento da expectativa de vida. A previsão é de que em 2030 sejam 65,7 milhões e em 2050, de 115,4 milhões.

O enfermeiro tem o papel fundamental na orientação e cuidados de enfermagem ao paciente e sua família, desde o diagnóstico ao estágio mais grave. Logo, é importante possuir conhecimentos, habilidades, técnicas e humanização para o manejo dos casos.

Os sinais mais comuns estão presentes em idosos na forma de demência, declínio de funções intelectuais e aprendizado, desorientação no tempo e espaço, distúrbios da linguagem e dificuldade de realizar atividades da vida diária.

Apesar de a etiologia ainda ser desconhecida, sabe-se que a idade é um dos principais fatores de risco, pois aproximadamente 5% das pessoas com idade entre 65 e 74 anos têm a doença, considerando ainda que a possibilidade dobra a cada cinco anos após os 65 anos. Estudos têm demonstrado uma maior prevalência da doença em mulheres, porém, não existem evidências que expliquem os mecanismos ou fatores implicados nessa associação. Também é relatado que pessoas com maiores níveis de escolaridade têm menor risco. O fator genético pode ser considerado de risco, pois em média, metade das crianças de um pai com Alzheimer pode desenvolver a doença. Outros fatores também podem ser considerados como: estilo de vida, diabetes, hipertensão, tabagismo, obesidade e sedentarismo.

Para o diagnóstico da doença, são necessários exames das funções cognitivas, testes psicológicos, avaliação neuropsicológica, exames de imagens e de sangue para descartar outras possíveis doenças, considerando que o diagnóstico é feito por exclusão, visto que a DA só pode ser diagnosticada com precisão se for realizado o exame microscópio do tecido cerebral por biópsia ou necropsia.

A Demência pode ser associada com a DA devido à perda da memória. Na demência acontecem alterações cognitivas, funcionais e comportamentais que sofrem evolução e podem ser reversíveis, causadas por depressão, ou irreversíveis como: traumatismo craniano e doença vascular.

Na maioria dos casos, a DA apresenta três estágios: leve, moderado e grave, porém podem ocorrer variações.

Estágio leve: perda de memória recente, dificuldade de memorização, esquecimentos, dificuldade de realizar atividades complexas, desorientação de espaço e tempo, perda de motivação, sinais de depressão.

Estágio moderado: domínios intelectuais prejudicados, alteração de compreensão, esquecimento de fatos importantes, nomes de familiares e amigos, perda de iniciativa, dificuldade em realizar tarefas diárias, agressividade.

Estágio grave: perda total da independência, atividades cognitivas bruscamente prejudicadas, incapacidade de andar, dificuldade para deglutir, aparência fragilizada, os membros passam a ter rigidez, incontinência intestinal, infecção do trato urinário (ITU).

O tratamento é complexo e envolve uso de fármacos e medidas não farmacológicas com intervenções psicossociais para o paciente e familiar. A intenção do tratamento é retardar a evolução, tratar os sintomas e controlar as alterações comportamentais.

Na assistência de enfermagem, deve ser adotada o Processo de Enfermagem, para facilitar o atendimento do paciente tanto nos hospitais como na orientação dos familiares de uma forma mais eficaz. No ambiente domiciliar, é importante que a enfermagem prepare o cuidador para execução das atividades assistenciais necessárias do cotidiano. Cabe à enfermagem a possibilidade de fazer visitas domiciliares e encaminhamentos para outros profissionais, além de planejar, executar, monitorar e avaliar planos de cuidados.

A enfermagem pode estimular a família a envolver-se ao máximo para, assim, verificar se há a necessidade de uma revisão e modificação nos planos de cuidados, considerando que a evolução da doença se torna cada vez maior a sua dependência.

No ambiente hospitalar, uma das atribuições da assistência de enfermagem é orientar e fiscalizar a equipe de trabalho para que a prescrição médica e terapêutica seja seguida corretamente, orientar a equipe a auxiliar os pacientes durante todo o processo, solicitar o acompanhamento multiprofissional com médicos, nutricionistas, psicólogos quando necessário.

O atendimento também pode ocorrer em ambulatórios, onde a enfermeira faz o exame físico, coleta de dados e aplicação de instrumentos de avaliação cognitiva e funcional, elabora um plano de cuidados intra e extradomiciliares para cada paciente. A enfermeira por meio da consulta de enfermagem deve identificar o cuidador principal, verificar a estrutura e dinâmica familiar e estruturas sociais e econômicas. Após a avaliação diagnóstica, a família deve receber esclarecimentos quanto à patologia, tratamento e prognóstico. A família é essencial nesse quadro para que a enfermeira possa fazer as primeiras orientações.

Diagnósticos de enfermagem

  • Confusão crônica.
  • Risco de lesão.
  • Ansiedade.
  • Intolerância à atividade.
  • Déficit de autocuidado, banho e higiene íntima.
  • Interação social prejudicada.
  • Processos familiares interrompidos.

Intervenções de Enfermagem

  • Proporcionar um ambiente calmo e previsível para reduzir ao mínimo a confusão e a desorientação do paciente.
  • Proporcionar um ambiente seguro (seja em casa ou no hospital) que permita ao paciente movimentar-se da maneira mais livre possível, e ajudar a aliviar a família da preocupação sobre a segurança do paciente.
  • Manter o ambiente simples, familiar e sem ruídos.
  • Simplificar as atividades diárias ao dividi-las em etapas curtas e realizáveis, de modo que o paciente possa ter uma sensação de realização.
  • Incentivar o paciente a fazer escolhas, quando apropriado, e a participar nas atividades de autocuidado o máximo possível.
  • Incentivar as visitas, cartas e telefonemas da família e amigos (as visitas devem ser breves e não devem causar estresse, limitando-se a um ou dois por vez).

 

A Enfermagem é uma arte; e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto a obra de qualquer pintor ou escultor; pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore comparado ao tratar do corpo vivo, o templo do espírito de Deus? É uma das artes; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes! - Florence Nightingale

 

REFERÊNCIAS

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