Assistência de Enfermagem às Síndromes Hemorrágicas da Segunda Metade da Gestação

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Vamos falar um pouco sobre um tema recorrente entre os profissionais de saúde em maternidades, centros obstétricos e em unidades básicas de saúde, as Síndromes Hemorrágicas na Gestação. Organizamos as síndromes de acordo com o período de tempo em que as encontramos durante a gestação. Por isso, as dividimos em Síndromes Hemorrágicas na Primeira Metade da Gestação e na Segunda Metade da Gestação. Nas imagens abaixo observamos as principais situações hemorrágicas.

Sabe-se que nem todo sangramento é sinônimo de preocupação para as gestantes, mas, ao conversar com uma delas e ouvir seus relatos, logo percebemos que esta ocorrência é sim bastante preocupante e a depender de sua recorrência e volume de sangue perdido torna-se até desesperador para elas e seus familiares.

Para isso, precisamos, enquanto profissionais de saúde, ter incialmente alguns critérios inerentes a nossa profissão como segurança, embasamento teórico e técnico e sem sombra de dúvidas amor pelo o que se faz.

Segurança, pois, ao nos imaginar diante de uma gestante sangrando ou com relatos de sangramento precisamos ter segurança nos nossos conhecimentos técnicos e em nossa experiência do dia a dia para transferi-la para tal fazendo-a sentir-se confiante de que receberá os melhores cuidados.

Este artigo nos traz sucintamente algumas especificidades das principais síndromes hemorrágicas da segunda metade da gestação e, para isso, é inevitável não falarmos um pouco sobre gestação. Então, vamos lá!

A gestação é um fenômeno fi­siológico e deve ser vista pelas gestantes e equipes de saúde como parte de uma experiência de vida saudável envolvendo mudanças dinâmicas do ponto de vista físico, social e emocional. Entretanto, trata-se de uma situação limítrofe que pode implicar riscos tanto para a mãe quanto para o feto e há um determinado número de gestantes que, por características particulares, apresentam maior probabilidade de evolução desfavorável, são as chamadas “gestantes de alto risco”.¹

Entende-se por Gestação de Alto Risco “aquela na qual a vida ou a saúde da mãe e/ou do feto e/ou do recém-nascido têm maiores chances de serem atingidas que as da média da população considerada”.¹  No mundo, a cada ano, ocorrem 120 milhões de gravidezes, entre as quais mais de meio milhão de mulheres morrem em consequência de complicações, durante a gravidez ou o parto, e mais de 50 milhões sofrem enfermidades ou incapacidades sérias relacionadas à gravidez.²

A razão da mortalidade materna no Brasil, segundo o Ministério da Saúde (MS), em 2002, foi de 50,3 por cem mil nascidos vivos. A região Nordeste teve o maior índice 60,8, seguida da região Centro-Oeste com 60,3, região Sul com 56,6 e Norte com 53,2; o menor índice foi encontrado na região Sudeste, com 45,9.²

Durante o processo gestacional, algumas mulheres têm maiores chances de apresentar agravos ou complicações de patologias preexistentes. Essas situações podem redundar em perdas fetais e/ou morte materna, por causas diretas ou indiretas.3

O óbito materno permanece sendo um grave problema de saúde pública em nosso país, com as consequências sociais que a morte dessas mulheres ocasiona. Segundo o Ministério da Saúde (2003), a razão de mortalidade materna corrigida no Brasil é de 72,4 por 100.000 nascidos vivos e a doença hipertensiva segue como a principal causa desses óbitos.3

Dentre os óbitos analisados, as causas obstétricas diretas (decorrentes de doenças específicas do ciclo gravídico puerperal) representaram 85,36% dos casos analisados, sendo também a hipertensão arterial a principal causa de morte materna, seguida pela hemorragia puerperal, a infecção e o abortamento; estas três últimas repetem-se há uma década.3

Com o objetivo de diminuir este desfecho é necessário maior monitoramento e controle dos fatores de risco perinatais desde o pré-natal. Em alguns casos, a internação da gestante é necessária para a vigilância diária e instituição de tratamento.3

Sabe-se que uma assistência de qualidade durante o pré-natal exerce uma redução significativa dos riscos maternos durante e após a gestação bem como dos riscos neonatais.²

As hemorragias na segunda metade da gestação constituem-se em frequentes diagnósticos em obstetrícia. São uma das principais causas de internação de gestantes no período anteparto, com importante aumento da morbimortalidade materna e perinatal, assim como de partos operatórios. A morbimortalidade perinatal está relacionada principalmente aos altos índices de prematuridade. Várias são as possíveis causas de sangramento.³

Entre as causas obstétricas, as mais importantes são o descolamento prematuro de placenta e a placenta prévia, que correspondem a até 50% dos diagnósticos. Não podem ser esquecidas a rotura uterina e a rotura da vasa prévia, que também são importantes causas obstétricas. Entre as causas não obstétricas, pode ocorrer o sangramento proveniente do colo do útero durante a dilatação no trabalho de parto, cervicites, pólipo endocervical, ectrópio, câncer de colo de útero e trauma vaginal.³

Os prognósticos materno e fetal vão depender do diagnóstico correto da causa do sangramento e conduta adequada com base nesse diagnóstico.³ A hemorragia no terceiro trimestre da gestação é grave ameaça à saúde e vida da mãe e feto. Junto com hipertensão e infecção são responsáveis pela maioria das mortes maternas.4 As principais causas de hemorragia com risco de vida são: placenta prévia, descolamento prematuro de placenta, rotura uterina e rotura de vasa prévia.5

Em relação aos fatores predisponentes, nota-se que o estilo de vida das mulheres que foram submetidas a estudos é uma questão bastante relevante. Sendo comprovado pela presença dos estados hipertensivos, cuja promoção e prevenção do mesmo é bastante trabalhado dentro da atenção básica, no entanto, ainda continua sendo um impasse que perpassa da atenção primária até a atenção terciária.

Tendo em vista, de acordo com as características particulares de cada região do Brasil, a baixa adesão às atividades que são propostas pelas unidades básicas de saúde ou falta delas deixam que problemas iniciais sejam complicados, levando esses pacientes a passarem por todos os níveis de atenção em saúde. Inclui-se também o uso de drogas ilícitas ou não por algumas clientes, que por sua vez, interferem negativamente no processo de saúde.

Por isso, se observa a importância de se trabalhar antes do pré-natal, o nível de conhecimento e de saúde das gestantes, objetivando uma melhor assistência à saúde da mulher e à redução de danos a ela e ao seu recém-nato. A idade avançada também é outro fator que predispõe às síndromes pela mudança de realidade das mulheres atuais quando comparamos às mulheres há décadas.

Ressalta-se, portanto, a relevância embutida durante todo o acompanhamento pré-natal objetivando atenuar os riscos encontrados desde o diagnóstico de gravidez como durante o período gravídico. Uma assistência pré-natal com qualidade baseia-se na coleta de dados de forma precisa e em tempo oportuno para a identificação de possíveis intercorrências durante o trabalho de parto e parto.

Após a identificação desses prováveis riscos, salienta-se também a importância da qualificação dos profissionais que prestarão assistência direta a essas gestantes. Feito isto, a qualificação de profissionais também é um fator relevante no manejo adequado dessas gestantes, favorecendo, por sua vez, a redução da morbimortalidade materno-neonatal.

Observa-se que com o emponderamento por parte das mulheres/gestantes/parturientes quanto as questões relacionadas a sua vida profissional e maternal nem todas querem os mesmos caminhos. Mesmo assim, enquanto cidadãos e profissionais manifestamos nosso respeito diante de suas escolhas para melhor compreensão de sua realidade para assim expormos nosso planejamento estratégico situacional.

Viu-se também que a fisiologia também é outra questão a ser considerada, como o desgaste da musculatura uterina com a multiparidade, a ruptura prematura de membranas ovulares, a presença ou não de uma cicatriz uterina prévia.

Pensando nisso, aqui está o Fluxograma 1, que resumidamente traz a conduta diante do Descolamento Prematuro de Placenta e, no Fluxograma 2, a conduta diante de uma Vasa Prévia.

Fluxograma 1 - Conduta no Descolamento Prematuro de Placenta

Fluxograma 2 – Conduta na Vasa Prévia

# Finalizando                     

Portanto, a necessidade de procedimentos operacionais utilizados no cotidiano da equipe de enfermagem nas maternidades e centros obstétricos com o intuito de melhorar e aprimorar a assistência de urgência e emergência às síndromes hemorrágicas da gestação. Para isso, sabe-se que esse interesse na integralidade às gestantes inicia-se no acompanhamento pré-natal de qualidade objetivando a redução na morbimortalidade materna e neonatal.

Percebemos assim, a relevância de protocolos de enfermagem em obstetrícia para uma melhor assistência durante o ciclo gravídico-puerperal que facilitasse a conduta dos profissionais, bem como oportunizasse e viabilizasse uma melhora clínica na assistência à saúde da mulher.

Vimos também, a marcante presença de tais síndromes no cotidiano dos profissionais de saúde e a vivência de mulheres com a sintomatologia que o quadro clínico das síndromes hemorrágicas causam nas mesmas. Dessa maneira, enfatiza-se a importância de mais pesquisas voltadas a esta temática, bem como o incentivo para os enfermeiros obstetras em atualizarem-se para sua qualificação profissional e consequente assistência.

 

REFERÊNCIAS

Souza JA, Silva MCB, Barbosa MN. Vivência acadêmica na consulta de enfermagem com gestantes de risco: um relato de experiência. RAI. RUM., VOL. 02 Nº 01, 112 - 155, RIO DE JANEIRO, JUN., 2014.
Cunha MA, Dotto LMG, Mamede MV, Mamede FV. Assistência pré-natal: competências essenciais desempenhadas por enfermeiros. Esc Anna Nery Rev Enferm 2009 jan-mar; 13 (1): 00-00.
O Cuidado à Gestante de Alto Risco.
Alves RM, Júnior CAA. Sangramento do terceiro trimestre.
Gestação de Alto Risco Manual Técnico. 5ª edição. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília – DF. 2012.

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