Assistência de Enfermagem ao Paciente com Infarto Agudo do Miocárdio

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As doenças cardiovasculares representam uma das maiores causas de mortalidade em todo o mundo. Antigamente, essas doenças eram consideradas causa importante de óbito somente em países desenvolvidos. Hoje, mesmo nos países em desenvolvimento, com um maior controle das doenças infecto-parasitárias e consequente aumento da longevidade de suas populações, essa doença tem atingido um número cada vez maior de pessoas em uma faixa etária cada vez mais baixa.

O termo infarto do miocárdio significa, basicamente, a morte de cardiomiócitos causada por isquemia prolongada. Em geral, essa isquemia é causada por uma oclusão da artéria coronária, por meio da formação de um coágulo ou placa de ateroma, diminuindo o fluxo sanguíneo e levando parte do miocárdio a um processo de necrose. A extensão da necrose depende de fatores como o calibre da artéria acometida, tempo de evolução da obstrução e desenvolvimento de circulação colateral.

A maior parte dos eventos é causada por ruptura súbita e formação de trombo sobre placas vulneráveis, inflamadas, ricas em lipídios e com capa fibrosa delgada. Uma porção menor está associada à erosão da placa aterosclerótica. Existe um padrão dinâmico de trombose e trombólise, simultaneamente, associadas a vasoespasmo, podendo causar obstrução do fluxo intermitente e embolização distal (um dos mecanismos responsáveis pela falência da reperfusão tecidual apesar da obtenção de fluxo na artéria acometida).

Entre as doenças cardiovasculares, a de maior incidência é a doença arterial coronária (DAC) cujas principais manifestações clínicas são a angina pectoris, o infarto agudo do miocárdio (IAM) e a morte súbita. A alta incidência da DAC em nosso meio está, em parte, relacionada ao fato de encontrarmos em nossa população um estilo de vida que propicia o desenvolvimento dos fatores de risco.

FATORES DE RISCO

Os fatores de risco para o IAM podem ser divididos em fatores modificáveis e não modificáveis, a depender se o fator pode ser alterado ou não pelo indivíduo. Os principais fatores não modificáveis são a idade avançada, a raça negra, o sexo masculino e o histórico familiar.

Os fatores modificáveis mais importantes são a alimentação desequilibrada rica em gorduras, carboidratos, sal e alimentos ultraprocessados, etilismo, tabagismo, consumo de outras drogas, situações recorrentes de estresse e o sedentarismo. Outros fatores são: dislipidemia, sedentarismo, hipertensão arterial (HAS), menopausa, excesso de peso e diabetes mellitus (DM).

SINAIS E SINTOMAS

O principal sintoma do IAM é dor torácica, ou seja, uma dor súbita, sob o esterno, constante e constritiva, que pode ou não se irradiar para várias partes do corpo como a mandíbula, costas, pescoço e braços, especialmente a face interna do braço esquerdo, e falta de ar.

DIAGNÓSTICO IAM

  • Sinais e sintomas apresentados pelo paciente.
  • ECG de 12 derivações (para verificar se existe supradesnivelamento do segmento ST e estimar a extensão e localização da lesão).
  • Raio X de tórax.
  • Exames laboratoriais: dosagens das enzimas cardíacas (Troponina I, CK-Total, CK-MB, Mioglobina).
  • Cineangiocoronariográfica (cateterismo cardíaco): é a introdução de um cateter nas artérias do coração, verificando se há obstrução. Caso seja encontrada, pode-se realizar a angioplastia coronária.

CLASSIFICAÇÃO DE KILLIP

Esta classificação é baseada em dados clínicos relacionados à gravidade da insuficiência ventricular nos pacientes com IAM.

Killip I Sem dispneia, B3 ou crepitações pulmonares.
Killip II Dispneia e crepitações pulmonares ou B3 (terceira bulha) e pressão venosa jugular elevada.
Killip III Com edema pulmonar agudo.
Killip IV Choque Cardiogênico (PA sistólica < 80 mmHg sem resposta a volume) e evidência de vasoconstrição periférica (oligúria, cianose ou diaforese).

ANGIOPLASTIA CORONÁRIA

A angioplastia coronariana é um dos métodos preferenciais de reperfusão miocárdica, realizada sem o uso prévio de agentes trombolíticos, para o tratamento do IAM. Trata-se de um tratamento minimamente invasivo, realizado em setor de hemodinâmica, que desobstrui uma artéria coronária, permitindo que o sangue volte a fluir livremente através desse vaso, promovendo a irrigação adequada daquela região do músculo cardíaco. Promove significativa redução na ocorrência de eventos maiores imediatos, como reinfarto, acidente vascular cerebral e óbito.

Durante o procedimento, feito sob anestesia local e sedação, o cardiologista executa a punção de uma grande artéria periférica, a exemplo da artéria femoral, introduzindo um cateter que possui em sua ponta um minúsculo balão, com a finalidade de chegar até a artéria coronária obstruída. A visualização em tempo real é obtida por meio de tomografia computadorizada e uso de contrastes.

Dessa forma, o balão é progressivamente insuflado sob alta pressão contra as paredes arteriais, comprimindo a placa de aterosclerose responsável pela obstrução. Essa ação pode ser repetida várias vezes, até que se obtenha uma desobstrução adequada da artéria coronária.

Após a desobstrução, uma prótese endovascular, também conhecida como stent (pequena prótese em formato de tubo que é colocada no interior de uma artéria para evitar uma possível obstrução total dos vasos), é liberada e fixada exatamente no ponto que anteriormente estava obstruído. Os stents são compostos por uma liga de metais e podem ter características diferentes, sendo que alguns são recobertos por medicamentos e/ou fabricados por substâncias biorreabsorvíveis.

Figura 2. Implantação de stent. Disponível em: http://www.boavidaonline.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Dr.-Si%CC%81lvio-Ca%CC%82mara-Angioplastia-Corona%CC%81ria-com-Implante-de-Stent-.jpg.

PAPEL DO ENFERMEIRO

Por meio de avaliação clínica e atuação precisa, o enfermeiro é capaz de prevenir as complicações do IAM. Em situações de emergência, os cuidados indiretos desde a previsão e provisão de materiais à educação continuada da equipe são fundamentais. Quando mais rápida a identificação do problema, maiores são as chances de desfechos favoráveis serem obtidos. Afinal, tempo é músculo!

DIAGNÓSTICOS DE ENFERMAGEM

  • DOR AGUDA
  • PERFUSÃO TISSULAR CARDÍACA INEFICAZ
  • DÉBITO CARDÍACO DIMINUÍDO
  • PADRÃO RESPIRATÓRIO INEFICAZ
  • RISCO DE CHOQUE

PRESCRIÇÕES DE ENFERMAGEM

  • Providenciar ECG de 12 derivações com urgência (em até 10 min) e comunicar laboratório para coleta de exames.
  • Iniciar a oxigenioterapia suplementar.
  • Instalar monitoração multiparamétrica: FC, FR, SpO2, PAM.
  • Manter cabeceira elevada e ambiente tranquilo para melhor conforto do paciente.
  • Monitorar: dispneia, hemoptise, estertores, distensão de jugular, pulso filiforme, taquicardia, rebaixamento do nível de consciência.
  • Acionar o setor de hemodinâmica.
  • Administrar os medicamentos conforme prescrição ou protocolo.

CUIDADOS DE ENFERMAGEM COM PACIENTE PÓS-IAM

A fase aguda do IAM pode ser dividida em duas fases: a fase aguda, a geral, que abrange os cinco primeiros dias pós-infarto, e a fase subaguda que abrange os dias restantes da hospitalização. O IAM se instala no cliente de forma abrupta, retirando-o de sua rotina. O medo da morte permeia seus pensamentos, sua saúde mental e o equilíbrio psicológico são afetados profundamente.

A equipe de enfermagem deve ser capaz de identificar os fatores psicobiológicos que interferem no seu processo de recuperação. A atenção de alta complexidade requerida pelos clientes com IAM, demandam um alto grau de especialização do trabalho da equipe de enfermagem, o que tem levado a uma transformação consciente do processo de cuidar.

Sendo assim, o profissional de enfermagem tem o importante papel de educador no processo saúde-doença para que o cliente retome às atividades da vida diária e autocuidado de maneira mais precoce e independente possível.

 

REFERÊNCIAS
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