Absenteísmo no Setor de Enfermagem: Possíveis Causas, Consequências e Soluções

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Qualquer ambiente de trabalho oferece riscos e fatores inerentes à função do trabalhador. Alguns desses fatores estão estreitamente ligados ao processo de saúde-doença do funcionário, quanto mais riscos sem controle, mais insalubre é considerado o ambiente.  Dentre os riscos no ambiente de trabalho podemos citar:

  • Riscos físicos:  ruído, iluminação inadequada, exposição a temperaturas extremas, vibração, radiação.
  • Riscos biológicos: contato com bactérias, fungos, material contaminado com sangue ou secreções.
  • Riscos ergonômicos: má postura no trabalho, excesso de carregamento de peso.
  • Riscos químicos, radiológicos e de acidentes.

Além dos riscos, os fatores relacionados à organização do trabalho como a má divisão das tarefas, o conteúdo das tarefas, a sobrecarga de trabalho, a pressão no tempo do cumprimento das tarefas, a falta de motivação no trabalho, a dificuldade de ascensão na instituição, também impactam diretamente na saúde física e psicológica do profissional.

Com a saúde afetada aumenta-se o número de trabalhadores faltosos nas instituições de saúde, ou seja, aumenta o absenteísmo. Absenteísmo ou ausentismo é a ausência do profissional no trabalho por inúmeros motivos, alguns previstos, outros não. No entanto, a ausência não prevista por motivo de doença é a que mais eleva os índices de falta, seja por parte dos enfermeiros, dos técnicos ou dos auxiliares de enfermagem.

No Canadá, uma pesquisa realizada pelo “Statistics Canada’s Employment” apontou que entre as profissões da área de saúde, os profissionais de enfermagem são os que possuem maiores índices de absenteísmo, o que influencia diretamente no dimensionamento de pessoal (COELHO et al., 2016) que impacta diretamente nos cuidados do paciente.

O ambiente de trabalho somado à dupla jornada e aos afazeres domésticos são causas de adoecimento. Por ser a enfermagem uma profissão predominantemente feminina, as preocupações com a casa e família são consideradas agravantes nesse processo. Seja em hospitais ou outras instituições de saúde, os enfermeiros e equipe executam um trabalho intelectual e manual e, na maioria dos casos, esse trabalho é realizado em ambientes e condições insalubres à sua saúde.

De todos os ambientes de trabalho, os hospitais destacam-se pela insalubridade. É o local que mais expõe o enfermeiro e equipe aos riscos ocupacionais. Com ausências frequentes de membros da equipe de enfermagem há uma sobrecarga na própria equipe que por sua vez sobrecarregada, torna-se mais susceptível a riscos e acidentes, adoecendo mais e se ausentando mais, é um ciclo vicioso.

Os agravos que mais prevalecem nos afastamentos são os distúrbios osteomusculares, estresse, transtornos mentais, seguidos por problemas respiratórios, distúrbios do sono, fadiga, transtornos alimentares, diminuição do estado de alerta.

Além do absenteísmo gerar impactos negativos para a saúde do trabalhador, também gera problemas de ordem econômica e, principalmente, nos cuidados do paciente.  A qualidade dos cuidados de enfermagem prestado está diretamente ligada ao percentual de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.

De acordo com a resolução do COFEN 543/2017, o dimensionamento de profissionais de enfermagem é realizado baseado nas características relacionadas ao serviço de saúde, ao serviço de enfermagem e ao paciente.  O quantitativo e o qualitativo de profissionais de enfermagem interferem, diretamente, na segurança e na qualidade da assistência ao paciente.

Essa norma técnica além de orientar os gestores sobre o cálculo dos profissionais de enfermagem, inclui uma medida intervencionista no caso do absenteísmo. É o cálculo do índice de segurança técnica (IST). Esse índice deve ser somado ao dimensionamento de pessoal. Trata-se de um acréscimo ao quantitativo total de funcionários de cada setor a fim de cobrir as ausências previstas e as não previstas. Seu cálculo é essencial para a cobertura dos funcionários que, por algum motivo, não compareçam ao trabalho.

Para calcular o IST de uma instituição, deve-se somar a taxa de absenteísmo (TA) à taxa de ausência por benefícios (TB):

IST = TA + TB

A taxa de absenteísmo corresponde as ausências não planejadas: atestado médico, licença maternidade e outras licenças médicas

A taxa de ausência por benefícios corresponde a ausências planejadas: férias e licença-prêmio.

O índice de segurança técnica que deve ser acrescido é de no mínimo 15% do total de funcionários do quadro de pessoal do setor de enfermagem.

Em algumas situações esse índice pode ser aumentado:

  • Caso a unidade assistencial realize o cálculo e apresente uma soma das taxas de absenteísmo e de benefícios, comprovadamente, superior a 15%, esse índice deverá ser ajustado para um correto dimensionamento.
  • Quando 60% ou mais do total de profissionais de enfermagem que atuam nas unidades de internação, estiver com idade acima de 50 anos, aumentar mais 10% ao IST da unidade, ou seja, o índice passará a ser de 25% (IST mínimo 15% +10% = 25%).

Além do IST, que é uma medida corretiva, soluções preventivas relacionadas ao absenteísmo devem ser tomadas, tais como:

  • Estudar cada local de trabalho e realizar o levantamento das possíveis causas de absenteísmo, os riscos prevalentes e planejar soluções para cada setor.
  • Criar um banco de dados para o registro de faltas, assim, além de proporcionar controle da causa/falta poderá servir como objeto de pesquisas futuras.
  • Realizar de modo mais equânime possível a divisão do trabalho e tarefas.
  • Promover na unidade de saúde ginástica laboral diariamente no início de cada turno de trabalho.
  • Implantar políticas motivacionais e de melhoria da qualidade de vida no trabalho.

Sabendo que a causa do absenteísmo é multifatorial e de seus impactos negativos para a instituição, trabalhador e paciente, faz-se necessário um conjunto de atitudes e implementação de políticas que envolvam gestores de enfermagem, recursos humanos, serviço de engenharia e medicina do trabalho para prevenção e acompanhamento da situação da instituição.

 

REFERÊNCIAS

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